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Freire Pedagogia da indignao Cartas pedaggicas e outros escritos 3
reimpresso Editora Unesp 2000 Ana Maria Arajo Freire Direitos de
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Dados Internacionais de Catalogao na publicao (CIP) (Cmara
Brasileira do Livro, SP, Brasil) Freire, Paulo, 1921-1997.
Pedagogia da indignao: cartas pedaggicas e outros         escritos /
Paulo Freire. - So Paulo: Editora UNESP, 2000. ISBN:85-7139-291-2
1. Educao 2. Freire, Paulo, 1921-1997 3. Pedagogia. Ttulo. 00-0987
CDD-370.1 ndice para catlogo sistemtico: 1. Freire, Paulo: Pedagogia:
Educao 370.1 Educao bvia Escolhi a sombra desta rvore para
repousar do muito que farei, enquanto esperarei por ti. quem espera na
pura espera vive um tempo de espera v. Por isto, enquanto te espero
Trabalharei os campos e Conversarei com os homens Suarei meu corpo, que
o sol queimar; minhas mos ficaro calejadas; meus ps aprendero o
mistrio dos caminhos; meus ouvidos ouvirs mais; meus olhos vers o que
antes no viam, enquanto esperarei por ti. No te esperarei na pura
espera porque o meu tempo de espera  um tempo de que fazer.
desconfiarei daqueles que viso ouvir-me: em voz baixa e precavidos: 
preciso agir  preciso falar  preciso andar  preciso esperar, na forma
em que esperas, porque esses recusam a alegria de tua chegada.
desconfiarei tambm daqueles que viso dizer-me, com palavras fceis,
que j chegaste, porque esses, ao anunciar-te ingenuamente, antes te
denunciam. Estarei preparando a tua chegada como o jardineiro prepara o
jardim para a rosa que se abrira na primavera. Paulo Freire (Genve -
maro 1971) Sumrio Apresentao Ana Maria Arajo Freire 9
Carta-prefcio a Paulo Freire Balduino A. Andreola 15 Parte I Cartas
pedaggicas Primeira carta Do esprito deste livro 29 Segunda carta Do
direito e do dever de mudar o mundo 53 Terceira carta Do assassinato de
Galdino Jesus dos Santos - ndio patax 65 Parte 11 Outros escritos
Descobrimento da Amrica 73 Alfabetizao e misria 77 Desafios da
educao de adultos ante a nova reestruturao tecnolgica 87 A
alfabetizao em televiso 103 Educao e esperana 111 Denncia,
anncio, profecia, utopia e sonho 117 Apresentao Ana Maria Arajo
Freire    Entregar aos leitores e leitoras de Paulo Freire o livro que
ele escrevia quando nos deixou, em 2 de maio de 1997,  um momento de
grandes emoes. Certamente no s para mim, mas tambm para aqueles e
aquelas que acreditavam que entre dezembro de 1996, quando publicou a
Pedagogia da autonomia, e maio de 1997, Paulo no teria ficado sem pr
no papel as suas sempre criativas idias. No teria, por quase um
semestre, deixado de expressar por escrito a sua preocupao de
educadorpoltico. No se enganaram os que assim pensaram e esperaram.
Agora, se no passadas todas as angstias, dvidas, expectativas e
tristezas por ele no estar mais entre ns, podemos comemorar com
alegria a sua volta s editoras e livrarias, inicialmente, com o seu
ltimo trabalho.   At ento eu no tinha ainda lido as 29 pginas
manuscritas das Cartas, uma das formas de comunicao que Paulo tanto
gostava de utilizar.1 Eu apenas conhecia os temas tratados (e os que ele
no teve tempo de escrever), pois sempre estava falando, discutindo e
comentando Com alegria ou indignao os fatos sobre os quais estava
construindo o seu novo discurso antropolgico poltico. Foi difcil para
mim iniciar a leitura dessas pginas. Tinha medo. Era como se isso fosse
confirmar o fato consumado de sua ausncia, to doloroso quanto
irreversvel. Ler um livro incompleto de Paulo implicaria para mim estar
novamente diante de sua morte. Quando uma relao amorosa como a nossa 
rompida abruptamente, ficamos, os que no se foram, perplexos,
espantados, estarrecidos, antes mesmo de termos conscincia da dor
brutal alojada para sempre dentro de ns; antes mesmo que possamos
realizar em nosso espao do sentir a perda que acabamos de sofrer. Esses
instantes (dias?) so tambm de um sofrer que nos marca para sempre
tanto quanto o luto consciente. Acreditar na ausncia para sempre?
Aceitar que o companheiro de todos os dias e de to das as horas partiu
quando ainda tanto queria ficar entre ns? Minha reao inicial foi,
ento, essa intil tentativa de driblar a realidade. Defendia-me, entre
outras maneiras/ no lendo os seus escritos, para no enfrentar a
situao de sofrimento que j estava instalada em mim, na verdade, desde
o instante que soube de sua morte. Por isso fugi enquanto pude para no
reafirmar a mim mesma que . alm de no mais ele poder me tocar, me
escutar e me olhar ele tambm no poderia escrever mais. 1 Sobre a
preferncia de Paulo Para escrever, algumas vezes, seus ensaios em forma
de cartas, ver Paulo Freire, Cartas s Cristina, So Paulo:Paz e Terra,
1994, in: Ana Maria Arajo Freire, Notas: Introduo (p.237-42). Ler
esses textos, sobretudo porque eles estavam, I como sempre, escritos
pelas prprias mos de Paulo, significaria naquelas horas de dor
indescritvel dizer a mim ' mesma que, definitivamente, estas Cartas
pedaggicas: (ele mesmo as chamou assim desde quando comeou a
escrev-las) ficaram inacabadas. E inacabadas para sempre no porque ele
tivesse, deliberadamente, abandona do o livro, pois ele tinha um prazer
muito especial quando concretizava a tarefa que tivesse dado a si
prprio escrever - e como o fazia belamente! O escrever era para ele
como um exerccio epistemolgico ou como uma tarefa eminentemente
poltica, alm de um gosto, um dever. E como tal jamais se negou a esse
que-fazer com seriedade e tica. 2 Ver Ana Maria Arajo Freire, Nita e
Paulo, crnicas de amor, So Paulo: Olho D'gua, 1998.    Meses, muitos
meses passaram-se, talvez um ano, desde aquela madrugada de perda, at o
momento em que comecei a executar minhas decises que resultam, hoje,
neste livro. Somente quando ficou claro para mim tudo o que em mim se
passava  que foi possvel entender que era necessrio enfrentar as
emoes - e ler as Cartas. Depois de analisadas sob a perspectiva de sua
incompletude  que tive certeza que deveria public-las, que no poderia
sonegar mais este legtimo direito dos estudiosos(as) de Paulo e,
sobretudo dele prprio. Esses escritos, compreendi, so fundamentais
para quem estuda a obra freireana tanto por neles estarem, de fato, as
suas ltimas reflexes escritas como pela importncia e modo de
abordagem dos temas tratados. Foi assim que me convenci desta minha
tarefa e empenhei-me nela com afinco.    Inicialmente, considerei
oportuno convidar alguns educadores e educadoras, todos e todas ligados
 teoria e/ou prxis de Paulo para escreverem cartas-respostas a ele.
Seriam cartas sobre as reflexes prprias de cada um(a) construdas a
partir dos provocantes e atuais temas tratados por Paulo nas Cartas
pedaggicas.   Dando tempo ao tempo, ansiosa algumas vezes, serenamente
refletindo em outros momentos, pacientemente impaciente, como diria o
meu marido, decidi, enfim, que estas derradeiras palavras dele deveriam
formar um livro exclusivamente dele como autor. Livro com as suas
palavras e idias, com as suas emoes e preocupaes, com sua sabedoria
e sensibilidade e com apenas algumas palavras minhas de
contextualizao3 de cada uma das Cartas  pedaggicas. Se, por um lado
ficou muito clara esta opo, por outro considerava que as Cartas,
formando, quantitativamente, um todo muito pequeno, deveriam, ento, ser
editadas como uma parte de um livro que se completaria com "outros
escritos" do prprio Paulo. 3 Paulo j havia me pedido para fazer Notas
explicativas em trs de seus livros: Pedagogia da esperana, So Paulo:
Paz e Terra, 1992; Cartas a Cristina, j citado, e  sombra desta
mangueira, So Paulo: Olho d'gua, 1995.. Estes "outros escritos"
reunidos na segunda parte do livro  uma seleo de seis textos, cinco
deles escritos no ano de 1996. "Alfabetizao e misria", "Desafios da
educao de adultos ante a nova reestruturao tecnolgica" e "A
alfabetizao em televiso" foram elaborados para conferncias que ele
mesmo proferiu na poca. "Educao e esperana", "Denncia, anncio,
profecia, utopia e sonho" foram pensados e elaborados especialmente para
publicao em livros. "Descobrimento da Amrica", Paulo o escreveu em
1992, mas no foi divulgado no momento em que se comemorava os 500 anos
da chegada do europeu ao Novo Mundo. Faz parte desta seleo pelo fato
de eu ter considerado de enorme importncia public-lo exatamente no ms
e ano em que se festeja, oficial mente, o "Descobrimento do Brasil".
Paulo mais uma vez nos est oferecendo com este texto a possibilidade de
uma leitura crtica de evento to significativo para brasileiros e
brasileiras construrem sua identidade cultural verdadeira. Como em
todos estes textos escolhidos para compor este livro Paulo demonstra a
sua indignao, a sua legtima raiva e a sua generosidade de amar,
resolvi que o ttulo do livro deveria corresponder a essa sua permanente
atitude e inteligncia perante a vida e o mundo. Est tambm, como podem
seus leitores comprovar, claramente implcita nesses textos a sua
postura, profundamente arraigada na vocao ontolgica de humanidade que
temos em cada um de ns exercida com clareza cidad por! Ele, mesmo
diante dos fatos to dramticos e difceis tratados, de forma a no se
afastar da esperana. Esta, alis, a matriz da dialeticidade entre ela
mesma, a raiva ou indignao e o amor. Assim, nomeei este livro
PEDAGOGIA DA INDIGNAO.4 4 Como Paulo j escrevera um livro com o
ttulo de Pedagogia da esperana este poderia ter tido o nome de
Pedagogia do amor, Optei, entretanto por Pedagogia da indignao por
considerar que este ttulo tem fora maior para traduzir o que Paulo
pretendeu denunciar quando escreveu os textos que o compem. As "Cartas
pedaggicas" formaro, ento, a Pane'l do livro e "Outros escritos", a
Parte 11.    No podemos esquecer que Paulo sempre dizia que as
verdadeiras aes ticas e genuinamente humanas nascem de dois
sentimentos contraditrios e s deles: do amor e da raiva. E este livro,
talvez mais do que os outros, est "empapado", como ele dizia - de seu
amor humanista e de sua raiva ou indignao poltica que se traduziram
em toda a sua obra, porque as vivia na sua existncia. Quer sob a forma
de antropologia poltica - compaixo/ solidariedade genuinamente
humanista - quer sob a forma de uma epistemologia histrico-cultural -
crena/f nos homens e nas mulheres e certeza na transformao do mundo
a partir dos oprimidos(as) e injustiados(as) atravs da superao da
contradio antagnica opressor/oprimido - quer ainda sob a forma de uma
filosofia sociontolgica com base, sobretudo, na esperana. Esta, pois,
entendida em relao com o amor e a indignao. Todas como fatores
dinamizadores e necessrios para transformar os projetos de "inditos
viveis" em concretudes histricas. Neste livro Paulo nos conclama para
a concretizao deste "indito", desta utopia que  a democratizao da
sociedade brasileira, atravs do amor-indignao-esperana. Acreditei,
portanto, que o ttulo no poderia ser outro.    Por fim, quero que os
leitores e leitoras de Paulo no considerem que esta  "uma obra
pstuma" dele, como tanto se fazia e algumas vezes ainda se faz. Prefiro
que esta seja considerada como a obra que celebra a sua VIDA. NITA
Tarde de vero, de sonhos realizando-se no meio das saudades imensas.
So Paulo, 11 de fevereiro de 2000. Carta-prefcio a Paulo Freire
Balduino A. Andreola 1 Paulo, Recebi tuas Cartas pedaggicas, que a Nita
amavelmente me enviou, pedindo-me que, depois de l-Ias, pusesse no
papel minhas reflexes sobre as mensagens nelas contidas. Foi com muita
emoo que as li, pois foram as ltimas cartas que escreveste s amigas
e aos amigos do mundo inteiro. Muita gente me perguntou, com
insistncia, quando sero publicadas. Agora respondo que a Nita e a
Editora UNESP esto agilizando a publicao. Pessoalmente, Paulo, penso
que cartas recebidas de amigos devem tambm ser respondidas por carta.
Foi por isso que decidi escrever-te. Quando minha carta j estava
escrita, a Nita me telefonou propondo-me coloc-la como prefcio de teu
livro. Ao mesmo tempo que me emocionei, levei tambm um susto, pois a
responsabilidade  muIto grande. Todavia, Paulo, quase no modificarei o
texto, para que no perca a espontaneidade e a informalidade com que
resolvi falar contigo. 1 Professor Titular aposentado da Faculdade de
Cincias da Educao CFACED) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). Professor Colaborador Convidado do Programa de Ps-Graduao em
educao(PPG/EDU) da UFRGS. Professor visitante da Capes no PPG/EDU da
Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Doutor em cincias da Educao
pela Universidade catlica de Louvain-la-Neuve (Blgica). Na primeira
das tuas Cartas, te propes escrever num clima de abertura ao dilogo,
de tal modo que o leitor ou a leitora pudesse ir percebendo que a
possibilidade do dilogo com seu autor se acha nelas mesmas, na maneira
curioso' com que o autor as escreve, aberto  dvida e  crtica. Este
propsito e esta atitude foram constantes em tua vida e em tua obra. Ao
ler agora o que escreveste, sintome invadido por dois sentimentos
dialeticamente opostos: a tristeza profunda de uma grande perda e a
alegria transbordante de uma presena nova, totalmente diferente da que
saborevamos antes que partisses para a tua grande viagem transistrica.
Sempre que falei de ti e de tua obra, nestes quase trs anos de teu
silncio solene, lembrei uma conversa emocionante com o filsofo Paul
Ricoeur, quando me foi dado o privilgio de t-lo como vizinho, em 1983,
durante o estgio de um ms na biblioteca Mounier, em Chtenay-Malabry,
perto de Paris. Falando da morte de Mounier, ocorrida em 1950, ele
disse: O lado mais cruel da morte  que a gente faz perguntas ao amigo,
e ele no responde mais. Lembro que a emoo lhe embargou a voz, e ele
ficou olhando longamente para o cho, em silncio. Impressionou-me
constatar que estava repetindo, trinta e trs anos depois, o que
escrevera em 1950, para o nmero especial da revista Esprit2 dedicado 
memria de Mounier, num texto memorvel cujo primeiro pargrafo cito
integralmente, no apenas por seu valor afetivo, mas tambm por seu
profundo sentido hermenutico. Assim escreveu Ricoeur: Nosso amigo
Emmanuel Mounier no responder mais s nossas perguntas: uma das
crueldades da morte  mudar radicalmente o sentido de uma obra literria
em andamento; no s ela no mais comporta continuaes, estando
encerrada, em todo o sentido da palavra, como tambm ela  arrancada a
este movimento de intercmbio, de interrogaes estas, que situava seu
autor entre os vivos. Para todo o sempre ela  uma obra escrita, e
somente escrita; a ruptura com seu autor est consumada; doravante ela
ingressa na nica histria possvel, a de seus leitores, a dos homens
vivos que ela nutre. Em certo sentido, uma obra atinge a verdade de sua
existncia literria quando seu autor morreu: toda publicao, toda
edio inaugura a relao impiedosa dos homens vivos com o livro de um
homem virtualmente morto.    2 Paul Ricoeur, Une philosophie
personnaliste. Esprit (Paris), p.860-87, dc. 1950. Texto includo no
livro Histoire et Vrit, Paris: Seuil, 1955; Histria e verdade, Trad.
de F. A. Ribeiro, Rio de Janeiro: Forense,    Tendo reconhecido a
densidade da reflexo de Ricoeur, a leitura de teus escritos, Paulo, e
sobretudo de tuas Cartas, permite-me questionar, porm, esta
hermenutica do dilogo interrompido. No dia 19 de setembro de 1998,
durante a festa popular de encerramento do I Colquio Internacional
Paulo Freire, no Recife, a Nita disse que no conseguia pensar em ti
como ausente. Em 99 estive de novo na tua Recife encantada, e posso
dizer com toda a sinceridade que o clima todo do I e do II Colquio, bem
como a pujana das realizaes que tua obra continua inspirando, no
Recife, em muitos outros municpios de Pernambuco e em inmeros lugares
do mundo inteiro, so evidncia eloqente de que continuas parceiro de
nossas caminhadas. Esta tua presena-permanncia, Paulo, eu a percebo
intensamente em numerosos eventos, dedicados ao estudo de tua obra e 
discusso de inmeras experincias que nela se inspiram, nas mais
diversas regies do mundo. Aqui no Rio Grande do Sul, o Congresso
Internacional promovido pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos
(UNISINOS), em 1998, congregou mais de 1.500 participantes. Em 99, a
Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Misses (URI)
realizou, em Santo ngelo, Um Colquio Internacional com 800
participantes. No Congresso da UNISINOS fundamos o Frum Paulo Freire,
como instancia permanente de dialogo e intercambio em torno de
experincias e estudos relacionados com tua obra. O 1Q Encontro do Frum
realizou-se na UNISINOS, nos dias 21 e 22 de maio de 99, contando com
mais de 70 trabalhos inscritos. Em maio deste ano o 2Q Encontro anual
ser sediado pela Universidade Federal de Santa Maria, coordenado por
nosso amigo Fbio e outros estudiosos de tua obra daquela Universidade.
O Frum Paulo Freire, nascido como criao e projeto coletivo, assim ir
continuar, sendo sediado cada ano por uma cidade diversa do Estado,
constituindo-se, pela dinmica de sua organizao, uma experincia muito
variada, prazerosa, e ao mesmo tempo crtica e criativa, de dilogo
genuinamente freireano ou "Paulino" em torno de diferentes leituras e
diferentes recriaes de tua obra. Paulo, a leitura de tuas Cartas
pedaggicas foi para mim como a imerso numa imensa onda csmica de
nimo, de esperana e do sentimento de que vale a pena persistir na
luta. Sinceramente h momentos em que a desesperana e a depresso
parecem prevalecer. Mas ao sentir-te e ao ouvir-te inteiramente fiel at
o fim na tua opo irrevogvel de lutar, denunciando e anunciando com a
veemncia de sempre, tais sentimentos se esvaem. A Terceira carta, que
permaneceu incompleta sobre tua mesa, da qual tomamos conhecimento
imediatamente aps tua morte pelo fragmento publicado pela Folha de
S.Paulo, nos revela com eloqncia a dimenso desta tua fidelidade total
ao projeto coletivo de libertao de que foste o inspirador maior e que
prossegue como um dos grandes projetos de solidariedade que pertencem
hoje  humanidade. Ao refletir sobre esta tua perseverana perene,
lembrei-me de trs insignes intelectuais que me ajudam a caracteriz-la
no seu significado histrico. Teu e nosso grande amigo, parceiro
incomparvel de tuas lutas, Ernani M. Fiori, na ltima conversa que com
ele tiveste, em 1984,3 disse: Paulo, estou feliz porque no paraste.
Paulo Freire, Depoimento de um grande amigo. Posfcio ao v.11 dos Textos
Escolhidos, de Ernani M. Fiori, Porto Alegre: L&PM, 199. p.273-87.
Aproximo esta declarao do amigo inesquecvel, j prximo ento da
viagem derradeira,  afirmao enftica do filsofo argentino Gustavo
Cirigliano.4 Tendo lido teu livro Pedagogia da esperana, ele analisa o
sentido de tua obra dentro de um paradigma temporal de trs momentos: o
pr-tempo (perodo auroral de grande mobilizao popular na Amrica
Latina, que precedeu as ditaduras); o contra-tempo (perodo de
represso, prises, exlios e execues), e o des-tempo. O des-tempo, ou
a assncronia foi o fenmeno que atingiu, segundo ele, quase todos os
que voltaram dos diferentes exlios (ou silncios repressivos) da longa
noite dos regimes militares. Com relao a ti, porm, o ilustre filsofo
proclama enfaticamente: sostengo que Paulo Freire ha quebrado el tiempo
deI destiempo porque no ha perdido Ia paIabra. Yeso es una hazana en
nuestro continente.   A expresso usada por Cirigliano isto  uma
faanha em nosso continente lembra-me as anlises que James Petras faz
com relao a um fenmeno bastante generalizado, que ele caracteriza
como dos intelectuais em retirada, que renunciam cada vez mais ao
marxismo e se tornam conselheiros polticos do status quo. No Seminrio
Internacional Emesto Che Guevara - 30 Anos, Petras5 declarou:    Yo creo
que el inters que hay ahora en el Che Guevara, en parte, refleja el
hecho de que el Che empez revolucionrio y termina la vida
revolucionrio. En el mundo actual, muchos jvenes miran, escucban y
discrepan com muchos Personajes, lderes polticos, que empezaron
revolucionrios Y abora, de una forma u otra, arrepentidos, critican su
pasado Y buscan formular proyectos de acomodamiento con el
neoliberalismo. Utilizando su prestigio deI pasado, su militancia, su
valentia, como un instrumento para evitar delates, crticas sobre su
conducta actual. Y frente a esta manipulacin de sus antecedentes, el
Che manifiesta un contraste. Paulo, achei altamente expressivo o ttulo
Pedagogia da indignao, escolhido por Nita para o livro que contm tuas
Cartas pedaggicas. Penso, porm, que, mesmo ao denunciar com
indignao, tu sabias ser mansamente respeitoso das pessoas. Confesso-te
que s vezes no consigo imitar tua mansido. Foi assim que num artigo
meu,6 ao pensar nestas reflexes de Petras, num tom irreverente escrevi:
eu me pergunto se os nmeros os ex-revolucionrios e ex-esquerdistas
foram realmente revolucionrios .,. Eu chego a pensar que certas
vocaes revolucionrias tm muito mais a ver com Freud do que com Marx.
Ou seja: parece tratar-se de reprises equivocadas, ao longo da vida, de
revoltas edipianas mal solucionadas, mais do que de autnticas vocaes
revolucionrias. Paulo, a leitura de tuas Cartas nos oferece pistas
extra ordinariamente ricas e desafiadoras para novas leituras de tua
obra. Foi esta, alis, a preocupao e a idia inspiradora do I Frum
Paulo Freire. Com minhas alunas e meus alunos do Mestrado em Educao da
UFPel, tambm realizamos, em 98, uma experincia interessante nesta
linha, fazendo de teU livro Pedagogia da autonomia uma leitura temtica.
Cada aluna ou aluno leu o livro na tica de seu tema preferido, de
acordo com sua formao de origem e com objeto de sua pesquisa de
mestrado. Nas sesses do seminrio, as diferentes leituras eram
socializadas e discutidas, sendo assim integradas numa leitura coletiva
de teu livro. No Frum Paulo Freire, em 99, intitulei meu trabalho
Leituras proibidas de P. Freire e reli tua obra nas perspectivas da
africanidade e do campo (cultura e educao do campo). 6 Balduino A.
Andreola, Atualidade da obra de Paulo Freire. Tempo de Cincia
(UNIOESTE, Toledo, Paran), v.s, n.l0, p.7-13, 1998.    Uma das
releituras que desejo fazer em dilogo com outros colegas  a
teolgico-bblica. J falei com o amigo    Danilo da UNISINOS, que
aderiu logo  idia. Trata-s,e de ler tua obra e tua trajetria de luta
a servio dos condenados da terra, dos oprimidos do mundo, na
perspectiva de tua f crist, que no foi a f de um cristianismo
comprometido com o status quo, mas sim na linha de uma teologia da
libertao e da laicidade, como preconizaram La Tour Du Pin, Ozanan,
Buchez, Teilhard de Chardin, Bernanos, Pguy, De Lubac, Chenu. Um
cristianismo como o queriam Lebret, Hlder Cmara, Duclerq. Um
cristianismo de fortes, de lutadores, como o visualizava Mounier no seu
livro-meditao L 'affrontment chrtien. Um cristianismo como o
descortinou Joo XXIII.    A leitura de tuas Cartas pedaggicas
surpreendeu-me pela variedade e riqueza de enfoques, alguns novos ou
menos enfatizados em tua obra. Entre estes eu destacaria o da famz1ia,
ou do tema educao e famlia. Ao destacar" no posso incidir, porm, no
reducionismo. Tu queres dirigir-te aos jovens pais e mes, aos filhos e
filhas adolescentes, mas tambm a professores e professoras. Tratas dos
problemas do dia-a-dia, mas ao mesmo tempo, na perspectiva ampla das
grandes mudanas acontecidas em nossos tempos e daquelas que esto
acontecendo, de forma sempre mais rpida. Na tua primeira carta, Paulo,
eu revivi a fraternal conversa que tivemos, quando jantamos Juntos no
Hotel Embaixador, em 1995, e o ponto de partida de nosso dilogo foram
meus filhos Diego e Michel, que havia conhecido ao almoar em nossa casa
naquele dia 18 de maio. A educao de nossos filhos e de nossos alunos
torna-se um desafio sempre maior, diante da magnitude crescente dos
problemas que o mundo atual nos prope. Tu no tens receitas, Paulo, e
nunca foi este o sentido de tuas obras. Todavia tuas Cartas pedaggicas
nos oferecem, isto sim, contribuies valiosas para todos ns, mes e
pais, educadores e educadoras do novo sculo e do novo milnio.
Obrigado, Paulo.  No posso delongar-me em detalhes. Nomearei alguns
ainda dos temas novos e dos novos enfoques de temas por ti j abordados
amplamente. Se no  novo o tema da Ecologia,  novo o enfoque e a
nfase com que o tratas. Falas do amor ao mundo no contexto do amor 
vida, desafiado por tua santa e veemente indignao perante o espetculo
cruel e desconcertante de cinco adolescentes brincando de matar,
barbaramente, em Braslia, Galdino, o ndio patax. O tema da Ecologia
est intimamente associado ao da tica, que perpassa tuas Cartas da
primeira  ltima pgina, da mesma maneira que perpassa, na minha
leitura, como tema central, idia I geradora, tema-chave, o teu
livro-testamento, Pedagogia I da autonomia. Tu contrapes nas Cartas,
como naquele I livro, a tica universal do ser humano, a tica da
solidariedade,  tica do mercado, insensvel a todo reclamo das gentes
e apenas aberta  gulodice do lucro. Paulo, h um novO modismo por a,
inclusive entre ex-revolucionrios I arrependidos, propalando que no
tem mais sentido, na ps-modernidade, falar as linguagens da tica e da
poltica, "superadas" pelos delrios fatalistas da globalizao e I da
Internet. Que bom, Paulo, que no paraste, proclamando at o fim, com o
vigor de um pedagogo-profeta, as dimenses tica e poltica como
exigncias ontolgico-existenciais e histricas da pessoa e da
convivncia humana e, em particular, da educao. A leitura atenta de
tuas Cartas exigir de todos ns uma releitura de tua obra. Elas
acrescentam novas dimenses, ressignificando, em sua totalidade, o teu
legado. Sem esquecer as perspectivas da inteligncia, da razo, da
corporeidade, da tica e da poltica, para a existncia pessoal e
coletiva, enfatizas tambm o papel das emoes dos sentimentos, dos
desejos, da vontade, da deciso, da resistncia, da escolha, da
curiosidade, da criatividade, da intuio, da esteticidade, da boniteza
da vida, do mundo, do conhecimento. No que tange s emoes reafirmas a
amorosidade e a afetividade, como fatores bsicos da vida humana e da
educao. Com relao  poltica, o problema do poder adquire novas
configuraes. Contra as tentaes de abdicar da luta, de renunciar 
utopia, de negar a esperana, denunciaste, com o mesmo vigor com que
denunciaste em Pedagogia da autonomia, todas as formas de compreenso
mecanicista e determinista da histria, e proclamas:    Uma das
primordiais tarefas da pedagogia crtica radical libertadora ... 
trabalhar contra a fora da ideologia fatalista dominante, que estimula
a imobilidade dos oprimidos e sua acomodao  realidade injusta,
necessria ao movimento dos dominadores.  defender uma prtica docente
em que o ensino rigoroso dos contedos jamais se faa de forma fria,
mecnica e mentirosamente neutra.      Baseado na convico de que o
amanh no  algo inexorvel e de que, por isso mesmo, no est dado de
antemo, anuncias a viabilidade de um projeto de mundo, e o direito das
classes populares de participar dos debates em torno de um projeto de
mundo. Paulo, tu consideras as classes populares, organizadas em seus
movimentos prprios, portadoras do sonho vivel e agentes histricos da
mudana. Entre estes movimentos populares, salientas a importncia
histrica do MST. Depois de lembrares a trajetria de lutas dos
Sem-Terra de ontem e de hoje, refletindo sobre a grande marcha que o MST
do Brasil inteiro realizou em 1997, declaras: que bom seria ... se
outras marchas se seguissem  sua. A marcha dos desempregados, dos
injustiados, dos que protestam Contra a impunidade, dos que clamam
contra violncia, contra a mentira e o desrespeito  coisa pblica. A
marcha dos sem teto, dos sem escola, dos sem hospital, dos renegados. A
marcha esperanosa dos que sabem que mudar  possvel. Paulo, no posso
concluir sem voltar  tua Terceira carta. Diante do episdio da trgica
transgresso da tica dos jovens assassinos do ndio patax, em
Braslia, afirmas que tal episdio: nos adverte de como urge que
assumamos o dever de lutar pelos princpios ticos mais fundamentais
como o respeito  vida dos seres humanos,  vida dos outros animais, 
vida dos pssaros,  vida dos rios e das florestas. Paulo, tu ests
defendendo o valor da vida na sua universalidade, sob todas as suas
formas, com a veemncia do Cristo, que expulsou os profanadores do
santurio, e com a linguagem potica e mstica de Francisco de Assis,
eleito o maior personagem do milnio recm-findo. Tua defesa no se
inspira num sentimentalismo vago, mas sim na radicalidade de uma
exigncia tica que assim proclamas: No creio na amorosidade entre
mulheres e homens, entre os seres humanos, se no nos tornamos capazes
de amar o mundo.   A civilizao ocidental, expressa na racionalidade
fria I e calculista da filosofia, da cincia e da tecnologia modernas,
revelou-se incapaz de salvaguardar os valores que defendes e de
articular a linguagem com que te comunicas. Degenerada num projeto de
mundo identificado com o des-amor da ganncia fratricida da posse, do
lucro e da especulao financeira, conduziu a humanidade  beira da
destruio total. Paulo, h algum tempo venho meditando que me parecias
deslocar-te do ocidente para o Oriente e para o Sul. Lendo tuas Cartas
confirmo-me nesta impresso de que, sem renunciar ao vigor da cincia e
da filosofia, ests muito mais prximo do pensamento e da viso de mundo
dos grandes mestres orientais, como tambm do esprito csmico, mstico
acolhedor c musical dos povos africanos. Paulo, simpatizo com a idia de
pensar o teu projeto pedaggico-poltico na constelao do que denomino
Pedagogia das grandes convergncias. Eu lembro alguns grandes mestre da
humanidade que no sculo findo, lutaram e dedicaram suas vidas por um
projeto mais humano, fraterno e solidrio de mundo. Sem excluir outros
penso nos seguintes: Gandhi, Joo XXIII, Luther King, Si mone Weil 1:et,
Frantz Fanon, Che Guevara, Teresa de Calcut, Dom Helder, Mounier,
Teilhard de Chardin, Nelson Mandela, Roger Garaudy, Dalai Lama,
Tovdjr, Betinho, paramahansa  Yogananda, Michel Duclerq, Fritjof
Capra, Pierre Weil, Leonardo Boff, Paul Ricoeur e outros. Ao pensar em
outros, lastimo, Paulo, que tua despedida inesperada tenha impedido um
encontro j previsto com o filsofo Jrgen Habermas, por ocasio da
viagem que farias  Alemanha, em 1997, para participar do Congresso
Internacional de Educao de Adultos. Teria sido, com certeza, um
dilogo histrico em alto nvel, entre dois pensadores de estatura
internacional. Cabe a ns, pois, no fundarmos clubinhos ou capelas, mas
promovermos o dilogo amplo e crtico entre as grandes teorias que,
contra a mar do determinismo e do fatalismo inexorvel da economia de
mercado, da especulao, da ganncia e da excluso, querem contribuir
para um novo projeto planetrio de convivialidade humana. Cabe a ns,
Paulo, que aqui ficamos, derrubarmos muros e inventarmos o que venho
chamando, h alguns anos, uma engenharia epistemolgico-pedag gica de
pontes, atravs das quais possamos ir e vir, ao encontro uns dos outros,
sonhando com o dia em que possamos sentar  sombra desta mangueira da
fraternidade global.   Se a tua voz, Paulo, fosse uma voz solitria, a
esperana se tornaria difcil. Alegra-nos ver-te situado num processo
histrico de grande envergadura. Tenho certeza plena de que todos os
grandes mestres citados acima e dezenas de outros, assinariam o que
escreveste em tuas emocionantes Cartas pedaggicas. Elas lanaro luzes
novas sobre os caminhos de milhares de educadores, e de muitos milhes
de pessoas, no mundo inteiro, que inspirados na tua obra, lutam para a
construo histrica de um novo projeto de humanidade.   Porto Alegre,
20 de janeiro de 2000. Parte 1 Cartas pedaggicas           Primeira
carta Do esprito deste livro             A mim me d pena e preocupao
quando convivo com famlias que experimentam a "tirania da liberdade" em
que as crianas podem tudo: gritam, riscam as paredes, ameaam as
visitas em face da autoridade complacente dos pais que se pensam ainda
campees da liberdade.    Fazia algum tempo um propsito me inquietava:
escrever umas cartas pedaggicas em estilo leve cuja leitura tanto
pudesse interessar jovens pais e mes quanto, quem sabe, filhos e filhas
adolescentes ou professoras e professores que, chamados  reflexo pelos
desafios em sua pratica docente, encontrassem nelas elementos capazes de
ajuda-los na elaborao de suas respostas. Cartas pedaggicas em que eu
fosse tratando problemas, destacados ou ocultos, nas relaes com filhas
e filhos ou alunas e alunos na experincia do dia-a-dia. Problemas que,
nem sempre, existiram para o jovem pai ou a jovem me ou o jovem
professor na experincia quase recente de adolescncia ou que, se
existiram, receberam diferente tratamento. Vivemos um tempo de
transformaes cada vez mais radicais nos centros urbanos mais
dinmicos. Aos 70 anos nos surpreendemos vestindo-nos como no o
fazamos aos 40.  como se hoje fssemos mais jovens do que ontem. Da
que uma das qualidades mais urgentes que precisamos forjar em ns nos
dias que passam e sem a qual dificilmente podemos estar, de um lado, se
quer mais ou menos  altura do nosso tempo, de outro, compreender
adolescentes e jovens,  a capacidade crtica, jamais "sonolenta" sempre
desperta  inteligncia do novo. Do inusitado que, embora s vezes nos
espante e nos incomode, at, no pode ser considerado, s por isso, um
desvalor. Capacidade crtica de que resulta um saber to fundamental
quanto bvio: no h cultura nem histria imveis. A mudana  uma
constatao natural da cultura e da histria. O que ocorre  que h
etapas, nas culturas, em que as mudanas se do de maneira acelera da. 
o que se verifica hoje. As revolues tecnolgicas encurtam o tempo
entre uma e outra mudana. O bisneto dos fins do sculo passado,
repetia, nos grandes traos no que tange s formas culturais de valorar,
de expressar o mundo, de falar, seu bisav. Hoje, numa mesma famlia,
nas sociedades mais complexas, o filho mais novo no repete o irmo mais
velho, o que dificulta as relaes entre pais, mes, filhas e filhos.
No haveria cultura nem histria sem inovao, sem criatividade, sem
curiosidade, sem liberdade sendo exercida ou sem liberdade pela qual,
sendo negada, se luta. No haveria cultura nem histria sem risco,
assumido ou no, quer dizer, risco de que o sujeito que o corre se acha
I mais ou menos consciente. Posso no saber agora que riscos corro, mas
sei que, como presena no mundo, corro risco.  que o risco  um
ingrediente necessrio  mobilidade sem a qual no h cultura nem
histria. Da a importncia de uma educao que, em lugar de procura;
negar o risco, estimule mulheres e homens a assumi-lo. ti assumindo o
risco, sua inevitabilidade, que me preparo ou me torno apto a assumir
este risco que me desafia agora e a que devo responder.  fundamental
que eu sal no haver existncia humana sem risco, de maior ou de menor
perigo. Enquanto objetividade o risco implica a subjetividade de quem o
corre. Neste sentido  que, primeiro, devo saber que a condio de
existentes nos submete a riscos; seg6ndo, devo lucidamente ir conhecendo
e reconhecendo o risco que corro ou que posso vir a correr para poder
conseguir um eficaz desempenho na minha relao com ele.      Sem me
deixar cair na tentao de um racionalismo agressivo em que, mitificada,
a razo "sabe" e "pode" tudo, insisto na importncia fundamental da
apreenso crtica da ou das razes de ser dos fatos em que nos
envolvemos. Quanto melhor me "aproximo" do objeto que procuro conhecer,
ao dele me "distanciar epistemologicamente",! tanto mais eficazmente
funciono como sujeito cognoscente e melhor, por isso mesmo, me assumo
como tal. O que quero dizer  que, como ser humano, no devo nem posso
abdicar da possibilidade que veio sendo construda, social e
historicamente, em nossa experincia existencial de, intervindo no
mundo, inteligi-Io e, em conseqncia, comunicar o inteligido. A
inteligncia do mundo, to apreendida quanto produzida e a
comunicabilidade do inteligido so tarefas de sujeito, em cujo processo
ele precisa e deve tornar-se cada vez mais crtico. Cada vez mais atento
 rigorosidade metdica de sua curiosidade, na sua aproximao aos
objetos. Rigorosidade metdica de sua curiosidade de que vai resultando
maior exatido de seus achados.    Se a mudana faz parte necessria da
experincia cultural, fora da qual no somos, o que se impe a ns 
tentar entend-la na ou nas suas razes de ser. Para aceit-la ou
neg-la devemos compreend-la, sabendo que, se no somos puro objeto
seu, ela no  tampouco o resultado de decises voluntaristas de pessoas
ou de grupos. Isto significa, sem dvida, que, em face das mudanas de
compreenso, de comportamento, de gosto, de negao de valores ontem
respeitados, nem podemos simples mente nos acomodar, nem tambm noS
insurgir de maneira puramente emocional..  neste sentido que uma
educao crtica, radical, no pode jamais prescindir da percepo
lcida da mudana que inclusive revela a presena interveniente do ser
humano no mundo. Faz parte tambm desta percepo lcida da mudana a
natureza poltica e ideolgica de nossa posio em face dela
independentemente de se estamos conscientes disto ou no. Da mudana em
processo, no campo dos costumes, no do gosto esttico de modo geral, das
artes plsticas, da msica, popular ou no, no campo da moral, sobretudo
no da sexualidade, no da linguagem, como da mudana historicamente
necessria nas estruturas de poder da sociedade, mas a que dizem no,
ainda, as foras retrogradas. Exemplo histrico de retrocesso  a luta
perversa contra a reforma agrria, em que os poderosos donos das terras
e que querem continuar donos das gentes tambm, mentem e matam
impunemente. Matam camponeses como se fossem bichos danados e fazem
declaraes de um cinismo estarrecedor. "No foram os nossos seguranas
que atiraram nos invasores, mas caadores que andavam pelas redondezas."
O menosprezo pela opinio pblica revelado neste discurso fala do
arbtrio dos poderosos e da segurana de sua impunidade. E isto no fim
do segundo milnio... E ainda se acusam os Sem-Terra de arruaceiros e
baderneiros porque assumem o risco de concretamente denunciar e
anunciar. Denunciar a realidade imoral da posse da terra entre ns e de
anunciar um pas diferente. Com a experincia histrica os Sem-terra
sabem muito bem que, se no fosse por suas ocupaes, a reforma agrria
pouco ou quase nada teria andado.   Na intimidade de seus assentamentos
devem emocionar-se com a sensibilidade do poder to preocupado com ouvir
e seguir o apelo do Papa... Mas o que quero dizer  o seguinte: na
medida em que nos tornamos capazes de transformar o mundo, de dar nome
s coisas, de perceber, de inteligir, de decidir, de escolher, de
valorar, de, finalmente, eticizar o  mundo, o nosso mover-nos nele e na
histria vem envolvendo necessariamente sonhos por cuja realizao nos
batemos.   Da ento, que a nossa presena no mundo, implicando escolha
e deciso, no seja uma presena neutra. A capacidade de observar, de
comparar, de avaliar para, decidindo, escolher, com o que, intervindo na
vida da cidade, exercemos nossa cidadania, se erige ento como uma
competncia fundamental. Se a minha no  uma presena neutra na
histria, devo assumir to criticamente quanto possvel sua
politicidade. Se, na verdade, no estou no mundo para simplesmente a ele
me adaptar, mas para transform-lo; se no  possvel mud-lo sem um
certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha
para no apenas falar de minha utopia, mas para participar de prticas
com ela coerentes. Me parece fundamental sublinhar, no horizonte da
compreenso que tenho do ser humano como presena no mundo, que mulheres
e homens somos muito mais do que seres adaptveis s condies objetivas
em que nos achamos. Na medida mesma em que nos tornamos capazes de
reconhecer a capacidade de nos adaptar  concretude para melhor operar,
nos foi possvel assumir-nos (sic) como seres transformadores. E  na
condio de seres transformadores que percebemos que a nossa
possibilidade de nos adaptar no esgota em ns o nosso estar no mundo. 
porque podemos transformar o mundo, que estamos Com ele e com outros.
No teramos ultrapassado o nvel de pura adaptao ao mundo se no
tivssemos alcanado a Possibilidade de, pensando a prpria adaptao,
nos servir dela para programar a transformao.  por isso que uma
educao progressista jamais pode em casa ou a escola, em nome da ordem
e da disciplina, castrar a altivez do educando, sua capacidade de
opor-se e impor-lhe um quietismo negador do seu ser.  por isso que devo
trabalhar a unidade entre meu discurso, minha ao e a utopia que me
move.  neste sentido que devo aproveitar toda oportunidade para
testemunhar o meu compromisso com a realizao de um mundo melhor, mais
justo, menos feio, mais substantivamente democrtico.  neste sentido
tambm que  to importante sublinhar  criana que, zangada, no
importa por que, esperneia e agride quem ela se aproxima, com ponta-ps,
h limites reguladores de nossa vontade quanto estimular a necessidade
de autonomia ou de auto-afirmao a uma criana tmida ou inibida.   
preciso inclusive, deixar claro, em discursos lcidos e em prticas
democrticas, que a vontade s se autentica na ao de sujeitos que
assumem seus limites. A vontade ilimitada  a von1tade desptica,
negadora de outras vontades e, rigorosamente, de si mesma.  a vontade
ilcita dos "donos do rmundo" que, egostas e arbitrrios, s se vem a
si mesmos. A mim me (d pena e preocupao quando convivo com famlias
que experimentam a "tirania da liberdade", em que as crianas podem
tudo: gritam, riscam as paredes, ameaam. as visitas em face da
autoridade complacente dos pais " que se pensam, ainda, campees da
liberdade. Submetidas ao rigor sem limites da autoridade, arbitrria as
crianas experimentam fortes obstculos ao aprendizado da deciso, da
escolha, da ruptura. corno aprender a decidir, proibidas de dizer a
palavra, de indagar, de comparar. Como aprender democracia na
licenciosidade em  que, sem nenhum limite, a liberdade faz o que quer ou
no autoritarismo em que, sem nenhum espao, a liberdade jamais se
exerce? Estou convencido de que nenhuma educao que pretenda estar a
servio da boniteza da presena humana no mundo, a servio da seriedade
da rigorosidade tica, da justia, da firmeza do carter, do respeito s
diferenas, engajada na luta pela realizao do sonho da solidariedade
pode realizar-se ausente da tensa e dramtica relao entre autoridade e
liberdade. Tensa dramtica relao em que ambas, autoridade e liberdade,
vivendo plenamente seus limites e suas possibilidades, aprendem, sem
trguas, quase, a assumir-se como autoridade e como liberdade.  vivendo
com lucidez a tensa relao entre autoridade e liberdade que ambas
descobrem no serem necessariamente antagnicas uma da outra.    a
partir deste aprendizado que ambas se comprometem na prtica educativa
com o sonho democrtico de uma autoridade ciosa de seus limites em
relao com uma liberdade zelosa igualmente de seus limites e de suas
possibilidades.   H algo ainda de que me convenci ao longo de minha
longa experincia de vida, de que a de educador  importante parte.
Quanto mais e mais autenticamente tenhamos vivido a tenso dialtica nas
relaes entre autoridade e liberdade tanto melhor nos teremos
capacitado para superar razoavelmente crises de difcil soluo para
quem tenha se entregue aos exageros licenciosos ou para quem tenha
estado submetido aos rigores de autoridade desptica.   A disciplina da
vontade, dos desejos, o bem-estar que resulta da prtica necessria, s
vezes difcil de ser cumprida, mas que devia ser cumprida, o
reconhecimento de que o que fizemos  o que devamos ter feito, a recusa
 tentao da auto complacncia nos forjam como sujeitos ticos,
dificilmente autoritrios ou submissos ou licenciosos. Seres mais bem
dispostos para a confrontao de situaes limites.      A liberdade
que, desde cedo veio aprendendo vivencialmente, a constituir sua
autoridade interna pela introjeo da externa  que vive plenamente suas
possibilidades. As possibilidades decorrem da assuno lcida, tica,
dos limites e no da obedincia medrosa e cega a eles. Ao escrever
agora, me recordo do exemplo de um desses exageros do uso e da
compreenso da liberdade. Eu tinha 12 anos e morava em Jaboato. Um
casal amigo de minha famlia nos visitava com o filho de 6 ou 7 anos. O
menino subia nas cadeiras, atirava almofadas para a direita, para a
esquerda como se estivesse em guerra contra inimigos invisveis. O
silncio dos pais revelava sua aceitao a tudo o que o filho fazia. Um
pouco de paz na sala . O menino sumiu pelo quintal para, em
seguida,voltar com um pinto, por pouco asfixiado, na mo quase crispada.
Entrou na sala ostentando, vitorioso, o objeto de sua astcia. Tmida, a
me aventurou uma plida defesa do pintinho, enquanto o pai se perdia
num mutismo significativo. "S falar de novo, disse o menino decidido,
dono da situao, eu mato o pinto".     O silncio, que nos envolveu a
todos, salvou o pintinho. Solto, combalido e trpego, saiu da sala como
pde. Atravessou o terrao e se foi esconder por entre a folhagem das
avencas, mimos de minha me. Nunca esqueci o juramento que fiz em face
de tamanha licenciosidade: se vier a ser pai, jamais serei um pai assim.
Mas, a mim me d pena tambm e preocupao, igual mente, quando convivo
com famlias que vivem a outra tirania, a da autoridade, em que as
crianas caladas, cabisbaixas, "bem-comportadas", submissas nada podem.
Quo equivocados acham pais e mes ou quo despreparados se encontram
para o exerccio de sua paternidade e de sua maternidade quando, em nome
do respeito  liberdade de seuS filhos ou filhas, os deixam entregues a
si mesmos, a seus caprichos, a seus desejos. Quo equivocados pais e
mes se encontram quando sentindo-se culpados porque foram, pensam,
quase malvados ao dizer um no necessrio ao filho, imediatamente o
cobrem de mimos que so a expresso de seus arrependimentos do que no
podiam arrepender-se de ter feito. A criana tende a perceber os mimos
como a anulao da conduta restritiva anterior da autoridade. Tende a
perceber os mimos como um "discurso" de escusas que a autoridade lhe
faz. A demonstrao permanente de afeto  necessria, fundamental, mas
no de afeto como forma de arrependimento. No posso pedir desculpas a
meu filho por ter feito o que deveria ter realmente feito.  to mau
isto quanto no explicitar meu sentimento por um erro que cometi.  por
isso tambm que no posso dizer no a meu filho por tudo ou por nada, um
no que atende ao gosto de meu arbtrio. Devo ser coerente ao dizer no
como ao estimular o filho com um sim.    Contraditrios entre si estes
modos, o autoritrio ou o licencioso, trabalham contra a urgente
formao e contra o no menos urgente desenvolvimento da mentalidade
democrtica entre ns. Estou convencido de que a primeira condio para
aceitar ou recusar esta ou aquela mudana que se anuncia  estar aberto
 novidade, ao diferente,  inovao,  dvida. Qualidades da
mentalidade democrtica de que tanto necessitamos e que tm nos modelos
referidos um grande bice.   No tenho dvida de que a minha tarefa
primordial de pai, amoroso da liberdade, mas no licencioso, zeloso de
minha autoridade, mas no autoritrio, no  manejar a opo partidria,
religiosa ou profissional de meus filhos, "guiando-os" para este ou
aquele partido ou esta ou aquela igreja ou profisso. Pelo contrrio,
sem omitir-lhes minha opo partidria e religiosa, o que me cabe 
testemunhar-lhes minha profunda amorosidade pela liberdade, meu respeito
aos limites sem os quais minha liberdade fenece, meu acatamento  sua
liberdade em aprendizagem para que eles e elas, amanh, a usem
plenamente no domnio poltico tanto quanto na f. Me parece
fundamental, do ponto de vista da mentalidade democrtica, no enfatizar
a importncia espontnea do testemunho de pai ou de me sobre a formao
dos filhos. Quase sempre, sub-reptcia ou ostensivamente o fazemos. O
ideal, para mim, reconhecendo esta importncia,  saber usa-la e a
melhor maneira de aproveitar a fora de meu testemunho de pai 
exercitar a liberdade do filho no sentido da gestao de sua autonomia.
Quanto mais filhas e filhos se vo tornando "seres para si" tanto mais
se vo fazendo capazes de re-inventar seus pais, em lugar de puramente
copi-los ou, s vezes, raivosa e desdenhosamente nega-los. o que me
interessa no  que meus filhos e minhas filhas nos imitem como pai e
me, mas refletindo sobre nossas marcas, dem sentido  sua presena no
mundo. Testemunhar-lhes a coerncia entre o que prego e o que fao,
entre o sonho de que falo e a minha prtica, entre a f que professo e
as aes em que me envolvo  a maneira autentica de, educando-me com
eles e com elas, educa-los numa perspectiva tica e democrtica. Na
verdade, como posso "convidar" meus filhos e filhas a respeitar meu
testemunho religioso se, dizendo-me cristo e seguindo os rituais da
igreja, discrimino os negros, pago mal  cozinheira e a trato com
distncia? Como posso, por outro lado, conciliar a minha fala em favor
da democracia com os procedimentos anteriormente referidos? Como posso
convencer meus filhos de que respeito o seu direito de dizer a palavra
se revelo mal-estar  anlise mais critica de um deles que embora
criana ainda, ensaia, legitimamente, sua liberdade de expressar-se? Que
exemplo de seriedade dou s crianas se peo a quem atendo ao telefone
que chama que, se for para mim, diga que no estou? Este esforo, porm,
em favor da coerncia, da retido, no pode resvalar, sequer
minimamente, para posies farisaicas. Devemos buscar, humildemente e
com trabalho, a pureza, jamais nos deixando envolver em prticas ou
assumindo atitudes puritanas. Moral, sim, moralismo, no. Outra
exigncia que me fazia: de umas certas marcas deveriam estar
resguardadas, desde logo, as cartas pedaggicas. Resguardadas da
arrogncia que intimida e inviabiliza a comunicao, da suficincia que
probe o prprio suficiente de reconhecer sua insuficincia, da certeza
demasiado certa do acerto, do elitismo teoricista, cheio de recusas e
indisposies contra a prtica ou do basismo negador da teoria, do
simplismo reacionrio e  soberbo que se funda na subestimao do outro -
o outro no  capaz de me entender. Assim, em lugar de procurar a
simplicidade na apresentao do tema de que falo, trata-o de forma quase
desdenhosa. Protegidas do simplismo, da arrogncia do cientificismo, as
cartas, por outro lado, deveriam transparecer, na seriedade e na
segurana com que fossem escritas, a abertura ao dialogo e o gosto da
convivncia com o diferente. O que quero dizer  o seguinte:que, no
processo da experincia da leitura das cartas, o leitor ou leitora
pudesse ir percebendo que a possibilidade do dilogo com o seu autor se
acha nelas mesmas, na maneira curiosa com que o autor as escreve, aberto
 duvida e  critica.  possvel at que jamais o leitor venha ter um
encontro pessoal com o autor. O fundamental  que fiquem claras a
legitimidade e a aceitao de posies diferentes em face do mundo.
Aceitao respeitosa. No importa o tema que se discute nestas cartas
elas devem achar "ensopadas" de fortes convices ora explicitas, ora
sugeridas. A convico, por exemplo, de que a superao das injustias
que demanda a transformao das estruturas inquas da sociedade implica
o exerccio articulado da imaginao de um mundo menos feio, menos
cruel. A imaginao de um mundo com que sonhamos, de um mundo que ainda
no , de um mundo diferente do que a est e ao qual precisamos dar
forma. No gostaria de ser homem ou de ser mulher se a impossibilidade
de mudar o mundo fosse algo to obvio quanto  obvio que os sbados
precedem os domingos. No gostaria de ser mulher ou homem se a
impossibilidade de mudar o mundo fosse verdade objetiva que puramente se
constatasse e em torno de que nada se pudesse discutir. Gosto de ser
gente, pelo contrario, porque mudar o mundo  to fcil quanto possvel.
 a relao entre a dificuldade e a possibilidade de mudar o mundo que
coloca a questo da importncia do papel da conscincia na histria, a
questo da deciso, da opo, a questo da tica e da educao e de seus
limites.    A educao tem sentido porque o mundo no  necessariamente
isto ou aquilo, porque os seres humanos so to projetos quanto podem
ter projetos para o mundo. A educao tem sentido porque mulheres e
homens aprendem que  aprendendo que se fazem e se refazem, porque
mulheres e homens se puderam assumir como seres capazes de saber, de
saber que sabem, de saber que no sabem. De saber melhor o que j sabem,
de saber o que ainda no sabem. A educao tem sentido porque, para
serem, mulheres e homens precisam de estar sendo. Se mulheres e homens
simplesmente fossem no haveria porque falar em educao. A conscincia
do mundo, que viabiliza a conscincia de mim, inviabiliza a
imutabilidade do mundo. A cons cincia do mundo e a conscincia de mim
me fazem um ser no apenas no mundo mas com o mundo e com os outroS. Um
ser capaz de intervir no mundo e no s de a ele se adaptar.  neste
sentido que mulheres e homens interferem no mundo enquanto os outros
animais apenas mexem nele.  por isso que no apenas temos histria.,
mas fazemos a histria que igualmente nos faz e que nos        torna
portanto histricos. Mas, se recuso, de um lado, o discurso fatalista,
imobilizador da histria, recuso, por outro lado, o discurso no menos
alienado do voluntarismo histrico, segundo o qual a mudana vir porque
est dito que vir. No fundo, so ambos estes discursos negadores da
contradio dialtica que cada sujeito experimenta em si mesmo, de
sabendo-se objeto da histria, tomar-se igualmente seu sujeito.
Saliente-se que o discurso da impossibilidade da mudana para a melhora
do mundo no  o discurso da constatao da impossibilidade mas o
discurso ideolgico da inviabilizao do possvel. Um discurso por isso
mesmo, reacionrio; na melhor das hipteses, um discurso
desesperadamente fatalista.    O discurso da impossibilidade de mudar o
mundo  o discurso de quem, por diferentes razes, aceitou a acomodao,
inclusive por lucrar com ela. A acomodao  a expresso da desistncia
da luta pela mudana. Falta a quem se acomoda, ou em quem se acomoda
fraqueja, a capacidade de resistir.  mais fcil a quem deixou de
resistir ou a quem sequer foi possvel em algum tempo resistir
aconchegar-se na mornido da impossibilidade do que assumir a briga
permanente e quase sempre desigual em favor da justia e da tica.
Mas,  importante enfatizar que h uma diferena fundamental entre quem
se acomoda perdidamente desesperanado, submetido de tal maneira 
asfixia da necessidade, que inviabiliza a aventura da liberdade e a luta
por ela, e quem tem, no discurso da acomodao, um instrumento eficaz de
sua luta - a de obstaculizar a mudana. O primeiro  o oprimido sem
horizonte; o segundo, o opressor impenitente.     Esta  uma das razes
por que o alfabetizador progressista no pode contentar-se com o ensino
da leitura e da escrita que d as costas desdenhosamente  leitura do
mundo. Esta  a razo tambm por que os militantes progressistas
precisam, quixotescamente at, opor-se ao discurso domesticador que diz
que o povo quer cada vez mais menos poltica, menos conversa e mais
resultados. As que vm enfatizando a ideologia do fazer naturalmente
consideram e se esforam por introjetar nas classes populares e no s
nelas que qualquer reflexo sobre o em favor de que e de quem se faz a
ao, sobre o em torno de quanto Custou e poderia custar a obra feita ou
a ser feita constituir um bla-bla-bl desnecessrio, pois o que vale
mesmo  fazer. Na verdade, no. Nenhuma obra se acha desvinculada de a
quem serve, de quanto custa e de quanto poderia custar de menos sem
prejuzo de sua eficcia. Lidar com a cidade, com a polis, no  uma
questo apenas tcnica, mas sobretudo poltica. Como poltico e educador
progressista continuarei minha luta de esclarecimento dos que-fazeres
pblicos tanto quanto continuo lutando contra a constatao absurda de
muita gente:         "voto nele. Rouba, mas faz". Gostaria de sublinhar,
na linha destas consideraes, que o exerccio constante da "leitura do
mundo" , demandando necessariamente a compreenso crtica da realidade,
envolve, de um lado, sua denncia, de outro, o anncio do que ainda no
existe. A experincia da leitura do mundo que o toma como um texto a ser
"lido" e "reescrito" no  na verdade uma perda de tempo, um bla-bla-bl
ideolgico, sacrificado r do tempo que se deve usar, sofregamente, na
transparncia ou na transmisso dos contedos, como dizem educadores ou
educadoras reacionariamente "pragmticos". pelo contrrio, feito com
rigor metdico, a leitura do mundo que se funda na possibilidade que
mulheres e homens ao longo da longa histria criaram de inteligir a
concretude e de comunicar o inteligido se constitui como fator
indiscutvel de aprimoramento da linguagem. A prtica de constatar, de
encontrar a ou as razes de ser do constatado, a prtica de denunciar a
realidade constatada e de anunciara sua superao, que fazem parte do
processo da leitura do mundo, do lugar  experincia da conjectura, da
suposio, da opinio a que falta porm fundamento preciso. Com a
metodizao da curiosidade, a leitura do mundo pode ensejar a ultra
passagem da pura conjectura para o projeto de mundo. A presena maior de
ingenuidade que caracteriza a curiosidade no momento da conjectura vai
cedendo o espao a uma inquieta e mais segura criticidade que
possibilita a superao da pura opinio ou da conjectura pelo projeto de
mundo. O projeto  a conjectura que se define com clareza,  o sonho
possvel a ser viabilizado pela ao poltica. A leitura crtica do
mundo  um que-fazer pedaggico-poltico indicotomizvel do que-fazer
poltico-pedaggico, isto , da ao poltica que envolve a organizao
dos grupos e das classes populares para intervir na reinveno da
sociedade. A denncia e o anncio criticamente feitos no processo de
leitura do mundo do origem ao sonho por que lutamos. Este sonho ou
projeto que vai sendo perfilado no processo da anlise crtica da
realidade que denunciamos est para a prtica transformadora da
sociedade como o desenho da pea que o operrio vai produzir e que tem
em sua cabea antes de faz-la est para a produo da pea.    Coerente
com a minha posio democrtica estou convencido de que a discusso em
torno do sonho ou do projeto de sociedade por que lutamos no 
privilgio das elites dominantes nem tampouco das lideranas dos
partidos progressistas. Pelo contrrio, participar dos debates em torno
do projeto diferente de mundo  um direito das classes populares que no
podem ser puramente "guiadas" ou empurradas at o sonho por suas
lideranas.    Com a inveno da existncia que mulheres e homens
criaram com os materiais que a vida lhes ofereceu, se lhes tornou
impossvel a presena no mundo sem a referncia a um amanh. A um amanh
ou a um futuro cuja forma de ser, porm, jamais  inexorvel. Pelo
contrrio, problemtica. Um amanh que no est dado de antemo. Preciso
de lutar para t-la. Mas preciso de ter dele tambm um desenho enquanto
luto para constru-lo como o operrio precisa do desenho da mesa na
cabea antes de produzi-Ia. Este desenho  o sonho por que luto.   Uma
das primordiais tarefas da pedagogia crtica radical libertadora 
trabalhar a legitimidade do sonho ticopoltico da superao da
realidade injusta.  trabalhar a genuinidade desta luta e a
possibilidade de mudar, vale dizer,  trabalhar contra a fora da
ideologia fatalista dominante, que estimula a imobilidade dos oprimidos
e sua acomodao  realidade injusta, necessria ao movimento dos
dominadores.  defender uma prtica docente em que o ensino rigoroso dos
contedos jamais se faa de forma fria, mecnica e mentirosamente
neutra.    neste sentido, entre outros, que a pedagogia radical jamais
pode fazer nenhuma concesso s artimanhas do "pragmatismo" neoliberal
que reduz a prtica educativa ao treinamento tcnico-cientifico dos
educandos. Ao treinamento e no  formao. A necessria formao
tcnico-cientfica dos educandos por que se bate a pedagogia crtica no
tem nada que ver com a estreiteza tecnicista e cientificista que
caracteriza o mero treinamento.  por isso que o educador progressista,
capaz e srio, no apenas deve ensinar muito bem sua disciplina, mas
desafiar o educando a pensar criticamente a realidade social, poltica e
histrica em que  uma presena.  por isso que, ao ensinar com
seriedade e rigor sua disciplina, o educador progressista no pode
acomodar-se, desistente da luta, vencido pelo discurso fatalista que
aponta como nica sada histrica hoje a aceitao, tida como expresso
da mente moderna e no "caipira" do que a est porque o que est a  o
que deve estar. Obviamente o papel de uma educadora crtica, amo rosa da
liberdade, no  impor ao educando o seu gosto da liberdade, a sua
radical recusa  ordem desumanizante; no  dizer que s existe uma
forma de ler o mundo, que  a sua. O seu papel, contudo, no se encerra
no ensino, no importa que o mais competente possvel, de sua
disciplina. Ao testemunhar a seriedade com que trabalha, a rigorosidade
tica no trato das pessoas e dos fatos, a professora progressista no
pode silenciar ante a afirmao de que "os favelados so oS grandes
responsveis por sua misria"; no pode silenciar em face do discurso
que diz da impossibilidade de mudar o mundo por que a realidade  assim
mesmo. A professora progressista ensina os contedos de sua disciplina
com rigor e com rigor cobra a produo dos educandos, mas no esconde
sua opo poltica na neutralidade impossvel de seu que-fazer. A
educadora progressista no se permite a dvida em tomo do direito, de um
lado, que os meninos e aS meninas do povo tm de saber a mesma
matemtica, a mesma fsica, a mesma biologia que os meninos e as meninas
das "zonas felizes"da cidade aprendem mas, de outro, Jamais aceita que o
ensino de no importa qual contedo possa dar-se alheado da anlise
crtica de como funciona a sociedade. Ao sublinhar a importncia
fundamental da cincia, a educadora progressista deve enfatizar tambm
aos meninos e s meninas pobres como aos ricos o dever que temos de
permanentemente nos indagar em torno de a favor de que e de quem fazemos
cincia.    Ajudar na elaborao do sonho de mudana do mundo como na
sua concretizao, de forma sistemtica ou assistemtica, na escola,
como professor de matemtica, de biologia, de histria, de filosofia, de
problemas da linguagem, no importa de qu; em casa, como pai, ou como
me, em nosso trato permanente com filhas e filhos, em nossas relaes
com auxiliares que conosco trabalham,  tarefa de mulheres e de homens
progressistas. De homens e de mulheres que no apenas falam de
democracia mas a vivem, procurando faz-la cada vez melhor.   Se somos
progressistas, realmente abertos ao outro e  outra, devemos nos
esforar, com humildade, para diminuir, ao mximo, a distncia entre o
que dizemos e o que fazemos.   No podemos falar a nossos filhos ou em
sua presena de um mundo melhor, menos injusto, mais humano e explorar
quem trabalha conosco. Podemos s vezes pagar melhor salrio no entanto
camos na cantilena hipcrita segundo a qual "a realidade  assim mesmo
e que no sou eu s que salvarei o mundo".    preciso testemunhar a
nossos filhos que  possvel ser coerente, mais ainda, que ser coerente
 um final de inteireza de nosso ser. Afinal a coerncia no  um favor
que fazemos aos outros, mas uma forma tica de nos comportar. Por isso,
no sou coerente para ser compensado, elogiado, aplaudido.
Posso at perder materialmente alguma coisa por ter sido coerente.Pouco
importa.            Nem sempre fcil de ser assumida, a busca da
coerncia educa a vontade, faculdade fundamental para o nosso mover-nos
no mundo. Cm a vontade enfraquecida  difcil decidir- sem deciso no
optamos entre uma coisa e outra, no rompemos.         Me lembro de que
nas duas ou trs vezes em que, ao longo de minha vida, pretendi deixar
de fumar me faltou o fundamental: a vontade firme com a qual decidir,
rom per entre fumar e no fumar. S quando realmente imperou a vontade
perseverante e assumi, com raiva do fumo, a deciso de j no fumar, me
libertei do cigarro, sem artifcio nenhum - chicletes ou bombons. E
fumava, ento, trs maos de cigarro por dia. Em ltima anlise, me
sentia demasiado incmodo vi vendo a incoerncia entre falar e escrever
em torno de uma pedagogia crtica, libertadora, que defende o exerccio
da deciso enquanto posio de sujeito e no a postura acomodada de puro
objeto e a minha submisso total         ao cigarro. Em certo momento,
passou a ser difcil conviver com o conhecimento de quanto o fumo me
estava         prejudicando sem que eu me rebelasse contra ele. A raiva
do fumo e a raiva de mim mesmo por tanta complacncia que tivera com ele
fortaleceram a minha vontade. Decidi, ento. Parei de fumar para sempre.
Antes, porm, tossi uma noite inteira. Amanheci e era todo raiva. Raiva
do cigarro. Raiva de mim. Acabou, disse, no fumo mais, olhando, com
outros olhos, oS maos que me sobrariam do cigarro ingls que costumava
fumar. Nunca dera ateno a propsitos de abandonar o cigarro de forma
programada: comear fumando apenas dez cigarros por dia e, num ritmo
lento, ir diminuindo at parar. Nunca ensaiei nada parecido. Tratei
sempre, pelo contrrio, de fortalecer o gosto de fumar, reconhecia
tambm que precisava vencer o gosto de fumar. A questo que se colocava
a mim no era a de me enganar, mas a de decidir, de optar entre manter o
gosto suicida ou transformar o desgosto provisrio, decorrente de meu
decidido no ao cigarro, na satisfao por minha afirmao como vontade.
A questo que se colocava no era a de esconder de mim, com falsos
argumentos como: no paro de fumar simplesmente porque no quero, a
minha prpria fraqueza. O que tinha de fazer era, pelo contrrio,
assumi-la para poder vence-la. Ningum supera a fraqueza sem
reconhece-la.  que a debilidade de nossa vontade revela a fora do
vcio que nos domina. Mas h uma forma venci da de reconhecer a
fragilidade: proclamar a invencibilidade da prpria fraqueza.  ficar
cada vez mais submisso ao poder que nos esmaga, o que afoga em ns a
possibilidade da reao e da luta.  por isso que uma das condies para
a continuidade da briga contra o poder que nos domina  reconhecer-nos
perdendo a luta, mas no vencidos. Era disso que precisava. Obviamente
algo no fcil de ser feito. Se exercer a vontade na luta contra o que
nos ameaa e oprime fosse coisa que se fizesse sem pertinaz trabalho e
sem notvel sacrifcio, a luta contra qualquer tipo de opresso seria
bem mais simples. Percebe-se facilmente a importncia da vontade
compondo um tecido complexo com a resistncia, com a rebeldia na
confrontao ou na luta contra o inimigo que, s vezes, mais do que nos
espreita, nos domina. Seja este inimigo o fumo, o lcool, a cocana, a
maconha, o crack ou a explorao capitalista, de que a ideologia
fatalista embutida no discurso neoliberal  um eficaz instrumento
dominante. A ideologia que fala, em face das injustias sociais, de que
"a realidade  assim mesmo, de que as injustias so uma fatalidade
Contra que nada se pode fazer" solapa e fragiliza o nimo necessrio
para a briga como as drogas, no importa qual delas, destruindo a
resistncia do viciado ou da viciada, os deixam prostrados e indefesos.
Com a vontade enfraquecida, a resistncia frgil, a identidade posta em
duvida, a auto-estima esfarrapada, no se pode lutar. Desta forma, no
se luta contra a explorao das classes dominantes como no se luta
contra o poder do lcool, do fumo ou da maconha. Como no se pode lutar,
por faltar coragem, vontade, rebeldia, se no se tem amanh, se no se
tem esperana. Falta amanh aos "esfarrapados do mundo" como falta
amanh aos subjugados pelas drogas.    Por isso  que toda prtica
educativa libertadora, valorizando o exerccio da vontade, da deciso,
da resistncia, da escolha; o papel das emoes, dos sentimentos, dos
desejos, dos limites; a importncia da conscincia na histria, o
sentido tico da presena humana no mundo, a compreenso da histria
como possibilidade jamais como determinao,  substantivamente
esperanosa e, por isso mesmo, provocadora da esperana. Um dos meus
sonhos ao escrever estas cartas pedaggicas - se no os tivesse no
haveria por que escrev-las  desafiar-nos, pais e mes, professoras e
professores, operrios, estudantes, a refletir sobre o papel que temos e
a responsabilidade de assumi-lo bem, na construo e no aperfeioamento
da democracia entre ns. No de uma democracia que aprofunda as
desigualdades, puramente convencional, que fortifica o poder dos
poderosos, que assiste de braos cruzados  aviltao e ao destrato dos
humildes e que acalenta a impunidade. No de uma democracia cujo sonho
de Estado, dito liberal,  o Estado que maximiza a liberdade dos fortes
para acumular capital em face da pobreza e s vezes da misria das
maiorias, mas de uma democracia de que o Estado, recusando posies
licenciosas ou autoritrias e respeitando realmente a liberdade dos
cidados, no abdica de seu papel regulador das relaes sociais.
Intervm, portanto, democraticamente, enquanto responsvel pelo
desenvolvimento da solidariedade social. Precisamos de uma democracia
que, fiel  natureza humana que tanto nos fez capazes de eticizar o
mundo quanto de transgredir a tica, estabelea limites  capacidade de
malquerer de homens e mulheres. No creio na democracia puramente formal
que "lava as mos" em face das relaes entre quem pode e quem no pode
porque j foi dito que "todos so iguais perante a lei". Mais do que
dizer ou escrever isto,  preciso fazer  isto. Em outras palavras, a
frase se esvazia se a prtica prova o contrrio do que nela est
declarado. Lavar as mos diante das relaes entre os poderosos e os
desprovidos de poder s porque j foi dito que "todos so iguais perante
a lei"  reforar o poder dos poderosos.  imprescindvel que o Estado
assegure verdadeiramente que todos so iguais perante a lei e que o faa
de tal maneira que o exerccio deste direito vire uma obviedade.    O
que me parece impossvel aceitar  uma democracia fundada na tica do
mercado que, malvada e s se deixando excitar pelo lucro, inviabiliza a
prpria democracia.   O que me parece impossvel  aceitar no haver
outro caminho para as economias frgeis seno acomodar-se,
pacientemente, ao controle e aos ditames do poder globalizante. Poder
ante o qual no h como no nos curvar fatalistamente, de braos
cruzados, estupefatos ou conformados. O que me parece impossvel 
silenciar diante desta expresso ps-moderna de autoritarismo. O que me
parece impossvel  aceitar docilmente que o mundo mudou radical e
repentinamente, da noite para o dia, fazendo sumir as classes sociais,
esquerda e direita, dominadores e dominados, acabando com as ideologias
e tornando tudo mais ou menos igual. J no me parece impossvel, porm,
respeitar o direito de quem pensa ou passou a pensar assim.
Veementemente, contudo, recuso aceitar que eu "j era" porque continuo
reconhecendo a existncia das classes sociais, porque nego a ideologia
da despolitizao da administrao pblica, embutida na chamada
"poltica de resultados", porque afirmo a fora das ideologias. Estas
cartas pedaggicas expressam mais um momento da luta em que me empenho
como educador, portanto, como poltico tambm com raiva com amor com
esperana, em favor do sonho de um Brasil mais justo.  Sou dos que se
exigem de si mesmos o cumprimento de tarefas entre as quais a de tornar
algumas delas possveis, quando delas se fala como inviveis. Como
educador, mas tambm como quem se d ao exerccio critico e permanente
de pensar a prpria prtica para teoriza-la,  isto o que venho fazendo
ao longo de minha experincia profissional.  isto o que venho
aprendendo a fazer e, quanto mais aprendo, mais prazer me d assumir-me
como tarefeiro. Rigorosamente, a importncia de nossas tarefas tem que
ver com a seriedade com que levamos a cabo, com o respeito que temos ao
execut-las, com o respeito aos outros em favor de quem as exercemos,
com a lealdade ao sonho que elas encarnam. Tem que ver com o sentido
tico de que as tarefas devem "molhar se" com a competncia com que as
desempenhamos, com o equilbrio emocional com que as efetivamos e com o
brio com que por elas brigamos.  Nunca me esqueo das consideraes que
um alfabetizando fez, em Natal, Rio Grande do Norte, em 1963, durante as
discusses num Crculo de cultura. Debatia-se exatamente este tema - a
importncia das tarefas a serem cumpridas por ns, mulheres e homens, na
histria. "Vejo agora", disse ele, como se comeasse a se libertar da
desvalia com que se percebia a si mesmo, enquanto sapateiro, em sua
oficina precria na esquina da rua "que o meu ofcio de consertar solas
de sapatos  tambm muito valo roso. Devolvo, com o meu trabalho, a quem
me traz um sapato estragado, um outro quase novo. Defendo os p" das
pessoas que ainda por cima gastam menos botando meia sola no sapato do
que se tivessem de comprar outro novo. Tenho de brigar pela dignidade de
meu trabalho e no me envergonhar por causa dele, O que fao  Diferente
do que faz o doutor que tem consultrio do outro lado da rua onde tenho
minha tenda.  diferente, mas importante tambm. Aquele homem que
aprendia a escrever a ler sentenas e palavras "re-lia" o mundo e, ao
faze-lo, percebia o que antes, na leitura anterior do mundo, no havia
captado. A re-leitura em que se engajava, enquanto se alfabetizava,
re-fazia a estima de si mesmo, elaborada desde o ponto de vista da
ideologia dominante que, inferiorizando o trabalho do "dependente",
intensifica sua subordinao ao poder. Aquele homem, na verdade, se
alfabetizava, no sentido amplo e profundo que h tanto tempo defendo.
Ele no apenas "lia" mecanicamente sentenas e palavras, se assumia como
tarefeiro.    [Paulo escreveu esta carta em janeiro de 1997. Estvamos
em nosso apartamento na praia de Piedade, em Jaboato dos Guararapes, no
mesmo municpio em que ele tinha passado o seu "segundo exlio ". Dizia
assim referindo-se ao perodo em que sua famlia fugiu" de Recife, entre
os anos de 1932 e 1941. O primeiro exlio teria sido o tempo de sua
gestao no tero da sua me e o terceiro o imposto pelos governos
militares, entre 1964 e 1980, quando viveu na Bolvia, Chile, EUA e
Sua. Ele recordando, em 1997, criticamente, os tempos de sua
adolescncia, na parte pobre e feia de Jaboato, reviu-se por inteiro,
enquanto pessoa e enquanto pensador. Analisou o seu percurso enquanto
pai e pela primeira vez escreveu sobre a educao sob este ponto de
vista. Falou tambm da educao das crianas de modo geral. Discutimos
as dificuldades de vivermos a tenso licenciosidade e autoritarismo,
liberdade e autoridade como possibilidades do ato de educar nossos
filhos. Paulo tinha conscincia clara quanto aos riscos das opes que
tomara neste Processo mais pessoal dele, mas ao mesmo tempo uma crena
no exemplo atravs da coerncia, da justia e do respeito aos outros e
s outras.         Nessa temporada sentia sua sade abalada por um
cansao do qual queria se ver livre atravs de nossas caminhadas nas
areias da praia, diariamente, no nascer das manhs. Anotava,
diariamente, numa branca e pequena "ficha de leitura" o tempo dedicado a
esse exerccio: dos iniciais 15 minutos at os 55. Falava orgulhoso aos
amigos desta sua faanha. Queria acreditar estar limpando seus pulmes
dos quase 40 anos nos quais fumara "trs maos por dia". Na verdade,
lembro-me, acendia um cigarro no outro at que, em Portugal, j nos fins
dos anos 70, em casa de um casal de amigos, como narra na carta,
deixou-os, o casal e a Elza, por toda uma noite sem dormir. Aquela tosse
que s a nicotina, mrbida e lentamente sabe produzir, anunciando o
tempo de vida, sem levar em considerao a vontade de quem fuma de
viver. Submisso que tinha feito Paulo conhecer o que  avareza nos seus
tempos de frica, pois guardava consigo, sofregamente, escondidos na sua
mala os pacotes que levava sempre nestas viagens. Esse foi um dos
termmetros que usou para medir a sua dependncia ao cigarro. E se
envergonhava disso... O ato de fumar em Paulo foi o nico do qual dizia
ter-se arrependido. Entendia sempre que fizera tudo na sua vida dentro
da tica e das possibilidades histricas-pessoais e scias-, mas nunca
se perdoou por ter fumado. Hoje vejo que este rever-se era um rever-se
na sua totalidade. Revendo, analisando e discutindo a sua vida, refazia
a sua inteligncia de educador na historia. Reconstrua um modo novo de
"ler o mundo". Assim, mais do que relembrar, do que perceber-se nas suas
limitaes histricas, do que saber-se e ver-se como um homem que amava
com tolerncia, que procurou obstinadamente aperfeioar as suas virtudes
de homem e de educador poltico, inseriu-se com mais radicalidade na
postura epistemolgica da ps-modernidade progressista, na qual j o
podamos incluir, sobretudo a partir da Pedagogia da esperana.
. Segunda carta Do direito e do dever de mudar o mundo    Se algum, ao
ler este texto, me perguntar, com irnico sorriso, se acho que, para
mudar o Brasil, basta que nos entreguemos ao cansao de constantemente
afirmar que mudar  possvel e que os seres humanos no so puros
espectadores, mas atores tambm da histria, direi que no. Mas direi
tambm que mudar implica saber que faz-lo  possvel.     certo que
mulheres e homens podem mudar o mundo para melhor, para faze-lo menos
injusto, mas a partir da realidade concreta a que "chegam" em sua
gerao. E no fundadas ou fundados em devaneios, falsos sonhos sem
razes, puras iluses.    O que no  porm possvel  sequer pensar em
transformar o mundo sem sonho, sem utopia ou sem projeto. As puras
iluses so os sonhos falsos de quem, no importa que pleno ou plena e
boas intenes, faz a proposta de quimeras que, por isso mesmo, no
podem realizar-se. A transformao do mundo necessita tanto do sonho
quanto a indispensvel autenticidade deste depende da lealdade de quem
sonha s condies histricas, materiais, aos nveis de desenvolvimento
tecnolgico, cientfico do contexto do sonhador. Os sonhos so projetos
pelos quais se luta. Sua realizao no se verifica facilmente, sem
obstculos. Implica, pelo contrrio, avanos, recuos, marchas s vezes
demoradas. Implica luta. Na verdade, a transformao do mundo a que o
sonho aspira  um ato poltico e seria uma ingenuidade no re-, conhecer
que os sonhos tm seus contra-sonhos.  que o momento de que uma gerao
faz parte, porque histrico, revela marcas antigas que envolvem
compreenses da realidade, interesses de grupos, de classes,
preconceitos, gestao de ideologias que se vm perpetuando em
contradio com aspectos mais modernos. No h hoje, por isso mesmo, que
no tenha "presenas" que, de h muito, perduram no clima cultural que
caracteriza a atualidade concreta. Da a natureza contraditria e
processual de toda realidade. Neste sentido  to atual o mpeto de
rebeldia contra a agressiva injustia que caracteriza a posse da terra
entre ns, de maneira eloqente encarnado pelo movimento dos
trabalhadores sem-terra quanto a reao indecorosa dos latifundistas,
muito mais ampara dos, obviamente, por uma legislao a servio
preponderantemente de seus interesses, a qualquer reforma agrria, por
mais tmida que seja. A luta pela reforma agrria representa o avano
necessrio a que se ope o atrasa imobilizador do conservadorismo. Mas o
que  preciso deixar claro  que o atraso imobilizador no  um estranho
 realidade. No h atualidade que no seja palco de confrontaes entre
foras que reagem ao avano e foras que por ele se batem.  neste
sentido que acham contraditoriamente presentes em nossa atualidade
fortes marcas do nosso passado colonial, escravocrata, obstaculizando
avanos da modernidade. So marcas de um passado que, incapaz de
perdurar por muito mais tempo, insiste em prolongar sua presena em
prejuzo da mudana. Precisamente porque a reao imobilizante faz parte
da atualidade  que ela, de um lado, tem eficcia, de outro, pode ser
contestada. A luta ideolgica, poltica, pedaggica e tica a lhe ser
dada por quem se posiciona numa opo progressista no escolhe lugar nem
hora. Tanto se verifica em casa, nas relaes pais, mes, filhos,
filhas, quanto na escola, no importa o seu grau, ou nas relaes de
trabalho. O fundamental,se sou coerentemente progressista, 
testemunhar, como pai, como professor, como empregador, como empregado,
como jornalista, como soldado, cientista, pesquisador ou artista, como
mulher, me ou filha, pouco importa, o meu respeito  dignidade do outro
ou da outra. Ao seu direito de ser em relao com o seu direito de ter.
Possivelmente, um dos saberes fundamentais mais requeridos para o
exerccio de um tal testemunho  o que se expressa na certeza de que
mudar  difcil, mas  possvel.  o que nos faz recusar qualquer
posio fatalista que empresta a este ou quele fator condicionante um
poder determinante, diante do qual nada se pode fazer. Por grande que
seja a fora condicionante da economia sobre o nosso comportamento
individual e social, no posso aceitar a minha total passividade perante
ela. Na medida em que aceitamos que a economia ou a tecnologia ou a
cincia, pouco importa, exerce sobre ns um poder irrecorrvel no temos
outro caminho seno renunciar  nossa capacidade de pensar, de
conjecturar, de comparar, de escolher, de decidir, de projetar, de
sonhar. Reduzida  ao de viabilizar o j determinado a poltica perde
o sentido da luta pela concretizao de sonhos diferentes. Esgota-se a
eticidade de nossa presena no mundo.  neste sentido que, reconhecendo
embora a indiscutvel importncia da forma como a sociedade organiza sua
produo para entender como estamos sendo, no me  possvel, pelo menos
a mim, desconhecer ou minimizar a capacidade reflexiva, decisria, do
ser humano. O fato mesmo de se ter ele tornado apto a reconhecer quo
condicionado ou influenciado  pelas estruturas econmicas o fez tambm
capaz de intervir na realidade condicionante. Quer dizer, saber-se
condicionado e no fatalistamente submetido a este ou quele destino
abre o caminho  sua interveno no mundo. O contrrio da interveno 
a adequao, a acomodao ou a pura adaptao  realidade que no 
assim contestada.  neste sentido que entre ns, mulheres e homens, a
adaptao  um momento apenas do processo de interveno no mundo. 
nisso que se funda a diferena primordial entre condicionamento e
determinao. S  possvel, inclusive, falar em tica se h, escolha
que advm da capacidade de comparar, se h responsabilidade assumida. 
por estas mesmas raes que nego a desproblematizao do futuro a que
sempre fao referncia e que implica sua inexorabilidade. A
desprob1ematizao do futuro, numa compreenso nl1ecanicista da
histria, de direita ou de esquerda, leva necessariamente  morte ou 
negao autoritria do sonho, da utopia, da esperana.  que, na
inteligncia mecanicista, portanto determinista da histria o futuro 
j sabido. A luta por um futuro j conhecido a priori prescinde de
esperana. A desproblematizao do futuro, no importa em nome de que, 
uma ruptura com a natureza humana, social e historicamente
constituindo-se. O futuro mo nos faz. Ns  que nos refazemos na luta
para faz-lo.   Mecanicistas e humanistas reconhecem o poder da economia
globalizada hoje. Enquanto, porm, para os primeiros nada h o que fazer
em face de sua fora intocvel, para os segundos no apenas  possvel,
mas se deve lutar contra a robustez do poder dos poderosos que a
globalizao intensificou ao mesmo tempo que debilitou a fraqueza dos
frgeis.     Se as estruturas econmicas, na verdade, me dominam de
maneira to sensorial, se, moldando meu pensar, me fazem objeto dcil de
sua fora, como explicar a luta poltica, mas, sobretudo, como faze-la e
em nome de qu? Para mim, em nome da tica, obviamente, no da tica do
mercado, mas da tica universal do ser humano,1 para mim, em nome da
necessria transformao da sociedade de que decorra a superao das
injustias desumanizantes. E tudo isso porque, condicionado pelas
estruturas econmicas, no sou, porm, por elas determinado. Se no 
possvel desconhecer, de um lado, que  nas condies materiais da
sociedade que se gestam a luta e as transformaes polticas, no 
possvel, de outro, negar a importncia fundamental da subjetividade na
histria. Nem a subjetividade faz, todo poderosamente, a objetividade
nem esta perfila, inapelavelmente, a subjetividade. Para mim, no 
possvel falar de subjetividade a n30 ser se compreendida em sua
dialtica relao com a objetividade. No h subjetividade na
hipertrofia que a toma como fazedora da objetividade nem tampouco na
minimizao que a entende como puro reflexo da objetividade.  neste
sentido que s falo em subjetividade entre os seres que, inacabados, se
tornaram capazes de saber-se inacabados, entre os seres que se fizeram
aptos de ir mais alm da determinao, reduzida, assim, a
condicionamento e que, assumindo-se como objetos, porque condicionados,
puderam arriscar-se como sujeitos, porque no determinados. No h, por
isso mesmo, como falar-se em subjetividade nas compreenses objetivistas
mecanicistas nem tampouco nas subjetivistas da histria. S na histria
como possibilidade e no como determinao se percebe e se vive a
subjetividade em sua dialtica relao com a objetividade.  percebendo
e vivendo a histria como possibilidade que experimento plenamente a
capacidade de comparar, de ajuizar, de escolher, de decidir, de romper.
E  assim que mulheres e homens eticizam o mundo, podendo, por outro
lado, tornar-se transgressores da prpria tica. A escolha e a deciso,
atos de sujeito, de que no podemos falar numa concepo mecanista da
histria, de direita ou de esquerda, e sim na sua inteligncia como
tempo de possibilidade, necessariamente sublinham a importncia da
educao. Da educao que, no podendo jamais ser neutra, tanto pode
estar a servio da deciso, da transformao do mundo, da insero
crtica nele, quanto a servio da imobilizao, da permanncia possvel
das estruturas injustas, da acomodao dos seres humanos  realidade
tida como intocvel. Por isso, falo da educao ou da formao. Nunca do
puro treinamento. Por isso, no s falo e defendo mas vivo uma prtica
educativa radical, estimuladora da curiosidade crtica,  procura sempre
da ou das razes de ser dos fatos. E compreendendo facilmente coma uma
tal prtica no pode ser aceita, pelo contrrio, tem de ser recusada,
por quem tem, na maior ou menor permanncia do status quo, a defesa de
seus interesses. Ou por quem, atrelado aos interesses dos poderosos, a
eles ou elas serve. Mas, porque, reconhecendo os limites da educao,
formal e informal, reconheo tambm a sua fora, assim como porque cons
tato a possibilidade que tm os seres humanos de assumir         tarefas
histricas, que volto a escrever sobre certos compromissos e deveres que
no podemos deixar de contrair se nossa opo  progressista. O dever,
por exemplo, de, em nenhuma circunstancia, aceitar ou estimular posturas
fatalistas. O dever de recusar, por isso mesmo, afirmaes como: " uma
pena que haja tanta gente com fome entre ns, mas a realidade  assim
mesmo". /'O desemprego  uma fatalidade do fim do sculo." "Galho que
nasce torto, torto se conserva." O nosso testemunho, pelo contrario, se
somos progressistas, se sonhamos com uma sociedade menos agressiva,
menos injusta, menos violenta, mais humana, deve ser o de quem, dizendo
no a qualquer possibilidade em face dos fatos, defende a capacidade do
ser humano de avaliar, de comparar, de escolher, de decidir e,
finalmente, de intervir no mundo. As crianas precisam crescer no
exerccio desta capacidade de pensar, de indagar-se e de indagar, de
duvidar, de experimentar hipteses de ao, de programar e de no apenas
seguir os programas a elas, mais do que propostos, , impostos. As
crianas precisam de ter assegurado o direito de aprender a decidir, o
que se faz decidindo. Se as liberdades no se constituem entregues a si
mesmas, mas na assuno tica de necessrios limites, a assuno tica
desses limites no se faz sem riscos a serem corridos por elas e pela
autoridade ou autoridades com que dialeticamente se relacionam.
Recentemente participei de perto da frustrao bem "tratada" de uma av,
minha mulher, que passara vrios dias cuidando de sua alegria, a de ter
consigo, em casa, Marina, a neta bem-amada. Na vspera do dia esperado,
a av foi cientificada por seu filho que sua neta j no viria.
Programara com amigas da vizinhana uma reunio para a criao de um
clube de diverses e esportes.   Programando, a neta est aprendendo a
programar e a av no se sentiu negada ou mal querida porque a deciso
da neta, com que est aprendendo a decidir, no correspondia a seu
desejo. Seria uma lstima se a av, fazendo "beicinho", expressasse um
desconforto indevido em face da deciso legtima de sua neta ou que seu
pai, revelando insatisfao, tentasse, autoritariamente, impor  filha
que fizesse o que no queria. Isto no significa, por outro lado, que,
no aprendizado de sua autonomia, a criana em geral, a neta, no caso,
no aprenda tambm que  preciso, s vezes, sem nenhum desrespeito  sua
autonomia, atender  expectativa do outro. Mais ainda,  necessrio que
a criana aprenda que a sua autonomia s se autentica no acatamento 
autonomia dos outros.         A tarefa progressista  assim estimular e
possibilitar, nas circunstancias mais diferentes, a capacidade de
interveno no mundo, jamais o seu contrrio, o cruzamento de braos em
face dos desafios.  claro e imperioso, porm, que o meu testemunho
antifatalista e que a minha defesa da interveno no mundo jamais me
tornem um voluntarista inconseqente, que no leva em considerao a
existncia e a fora dos condicionamentos. Recusar a determinao no
significa negar os condicionamentos. Em ltima anlise, se progressista
coerente, devo permanentemente testemunhar aos filhos, aoS alunos, s
filhas, aos amigos, a quem quer que seja a minha certeza de que os fatos
sociais econmicos, histricos ou no se do desta ou daquela maneira
porque assim teriam de dar-se. Mais ainda, que no se acham imunes de
nossa ao sobre eles. No somos apenas objetos de sua "vontade", a eles
adaptando-nos mas sujeitos histricos tambm, lutando por outra vontade
diferente: a de mudar o mundo, no importando que esta briga dure um
tempo to prolongado que, s vezes, nela sucumbam geraes.  O Movimento
dos Sem-Terra, to tico e pedaggico quanto cheio de boniteza, no
comeou agora, nem h dez ou quinze, ou vinte anos. Suas razes mais
remotas se acham na rebeldia dos quilombos e, mais recentemente, na
bravura de seus companheiros das Ligas Camponesas que h quarenta anos
foram esmagados pelas mesmas foras retrgradas do imobilismo
reacionrio, colonial e perverso. O importante porm  reconhecer que os
quilombos tanto quanto os camponeses das Ligas e os sem-terra de hoje
todos em seu tempo, anteontem, ontem e agora sonharam e sonham o mesmo
sonho, acreditaram e acreditam na imperiosa necessidade da luta na
feitura da histria como "faanha da liberdade". No fundo, jamais se
entregariam  falsidade ideolgica da frase: "a realidade  assim mesmo,
no adianta lutar". Pelo contrrio, aposta ram na interveno no mundo
para retific-lo e no apenas para mant-lo mais ou menos como est. Se
os sem-terra tivessem acreditado na ",morte da histria", da utopia, do
sonho; no desaparecimento das classes sociais, na ineficcia dos
testemunhos de amor  liberdade; se tivessem acreditado que a crtica ao
fatalismo neoliberal  a expresso de um "neobobismo" que nada
constri; se tivessem acreditado na despolitizao da poltica, embutida
nos discursos que falam de que o que vale hoje  "pouca conversa, menos
poltica e s resultados", se, acreditando nos discursos oficiais,
tivessem desistido das ocupaes e voltado no para suas casas, mas para
a negao de si mesmos, mais uma vez a reforma agrria seria arquivada.
A eles e elas, sem-terra, a seu inconformismo,  sua determinao de
ajudar a democratizao deste pas devemos mais do que s vezes podemos
pensar. E que bom seria para a ampliao e a consolidao de nossa
democracia, sobretudo para sua autenticidade, se outras marchas se
seguissem  sua. A marcha dos desempregados, dos injustiados, dos que
protestam contra a impunidade, dos que clamam contra a violncia, contra
a mentira e o desrespeito  coisa pblica. A marcha dos sem-teto, dos
sem-escola, dos sem-hospital, dos renegados. A marcha esperanosa dos
que sabem que mudar  possvel. [Ainda em Jaboato Paulo iniciou esta
Segunda carta e s pde complet-la depois que voltamos de Cambridge,
EUA, no dia 7 de abril de 1997. Tnhamos ido, via Nova York, nos fins de
maro de 1997, exatamente no dia 22, para acertar com a Universidade de
Harvard o curso que ele teria dado na Harvard Graduate School of
Education (HGSE), durante o "semestre de outono" de 1997, como eles
nomeiam por l o perodo letivo de setembro a dezembro/janeiro de cada
ano escolar. Estava acertado com Donaldo Macedo, professor da
Universidade de Massachussetts, em Boston, a quem Paulo tinha convidado
para seu assistente neste curso, que o mesmo teria como eixo central o
livro Pedagogia da autonomia, que fora traduzido para o ingls tendo
como fim mais imediato este objetivo. Em Harvard Square fomos abordados
por vrios estudantes e alguns professores, todos e todas para
manifestar a alegria e o espanto de que uma universidade to
conservadora e mantenedora do status quo como essa estivesse abrindo a
oportunidade de professores crticos oferecem um curso
crtico-reflexivo-conscientizador. Voltamos felizes com as expectativas
do trabalho crtico que Paulo iria fazer. Estvamos certos de que este
se daria com seriedade, honestidade e transparncia, mesmo que a
contragosto permitido pela direo da conceitua da universidade
americana. Tal "abertura" fazia parte da "moldura democrtica" que os
EUA tm que sustentar porque se proclamam democrticos, dizia Paulo.
Programvamos o tempo que disporamos na Nova Inglaterra para ler,'
escrever e refletir na casa que, sonhramos, aquecida, nas livraria do
forte frio comum no outono e no inverno daquela regio. Entretanto, no
aconchego poderamos ver, repetia meninamente, atravs das janelas, duas
coisas, dois fenmenos da natureza que o encantavam tanto desde quando
os viu pela primeira vez. As folhas verdes que vo fazendo-se amarelas
mais e mais at carem, quase marrons, no cho que as acolhe para mesmo
cobertas pela neve que se petrifica e as congela continuarem a ser parte
do ciclo da vida. E a neve mesma caindo, suavemente, como se fossem
flocos de algo do ou papel branco picado... Caprichos da natureza que
Paulo tanto amou em suas mais diferentes formas e funes.
Conversvamos, sobretudo como seria entender a distncia os problemas de
nosso pas dentro de um outro to diferente poltica, econmica e
culturalmente falando. Paulo preocupava-se de modo muito especial nesta
poca com a situao mundial atrelada a um modelo poltico neoliberal e
da globalizao da economia. Refletia muito e no cansava de dizer, por
isso escreveu, que acre ditava como possibilidade histrica, como sada
para o nosso colonialismo, para as nossas misrias, como ttica para a
estratgia da democracia  brasileira, a opo politico-ideolgica e as
aes sem violncia do MST. Escrevia e discutia  esta Carta e cada dia
mais empolgava-se com  o testemunho do "respeito  dignidade do outro ou
da outra" atitude, alis, quero enfatizar, que Paulo nunca perdoava a
quem dela se afastasse deliberadamente. Ficava feliz ao ver que "essa
gente destemida est nos dando, atravs de sua luta, a esperana de dias
melhores para o Brasil", repetia ele tambm com esperana. Devo e quero
testemunhar aqui a emoo de Paulo, em 17 de abril de 1997, quando a
Marcha dos Sem-Terra, organizadamente, vinda de diferentes partes de
nosso pas fazendo-se um s corpo nos corpos de crianas, velhos e
jovens, negros ou brancos, entrou em Braslia. Ele havia me convidado
para assistirmos ao evento poltico pela televiso, desde que no
estvamos l na Capital, com eles e elas, nesta Marcha na qual muitos
peregrinavam h trs meses. Quando Paulo viu aquela multido entrando,
altiva e disciplinada mente, na Esplanada dos Ministrios, ficou de p
caminhando de um lado para outro da sala, com os plos do corpo
eriados, poros abertos e suor quente. Repetia com voz emocionada,
falando para os sem-terra e no para mim estas palavras carregadas da
sua compreenso perante o mundo: " isso minha gente, gente do povo,
gente brasileira. Esse Brasil  de todos e todas ns. Vamos em frente,
na luta sem violncia, na resistncia consciente, com determinao
tom-lo para construirmos, solidariamente, o pas de todos e de todas
os/as que aqui nasceram ou a ele se juntaram para engrandece-lo. Esse
pas no pode continuar sendo o de poucos... Lutemos pela democratizao
desse pas. Marchem, gentes de nosso pas... "    Paulo terminou esta
Segunda carta neste mesmo dia. Nela convocou outras marchas. Com a
humildade habitual no disse, sequer mencionou  que esta Marcha tambm
tinha sua razes na sua compreenso de educao libertadora. Que os
movimentos sociais brasileiros ganharam, no s o MST,
indiscutivelmente, consistncia nas suas prxis atravs do que ele,
Paulo, props no seu trabalho terico antropolgico-ideolgico-poltico-
educacional. Props com a sua vida.    Terceira carta Do assassinato de
Galdino Jesus dos Santos ndio patax    "Que coisa estranha, brincar de
matar ndio, de matar gente. Fico a pensar aqui, mergulhado no abismo de
uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolervel
desses moos desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar
de crescer."      Cinco adolescentes mataram hoje, barbaramente, um
ndio patax, que dormia tranqilo, numa estao de nibus, em Braslia.
Disseram  polcia que estavam brincando. Que coisa estranha. Brincando
de matar. Tocaram fogo no corpo do ndio como quem queima uma
inutilidade. Um trapo imprestvel. Para sua crueldade e seu gosto da
morte, o ndio no era um tu ou um ele. Era aquilo, aquela coisa ali.
Uma espcie de sombra inferior. no mUndo. Inferior e incmoda, incmoda
e ofensiva.    Possvel que, na infncia, esses malvados adolescentes
tenham brincado, felizes e risonhos, de estrangular pintinhos, de atear
fogo no rabo de gatos pachorrentos s para v-los aos pulos e ouvir seus
miados desesperados, e se tenham tambm divertido esmigalhando botes de
rosa nos jardins pblicos com a mesma desenvoltura com que rasgavam, com
afiados canivetes, os tampos das mesas de sua escola. E isso tudo com a
possvel complacncia quando no com o estmulo irresponsvel de seus
pais. Que coisa estranha, brincar de matar ndio, de matar gente. Fico a
pensar aqui, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade,
espantado diante da perversidade intolervel desses moos
desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer.
Penso em suas casas, em sua classe social, em sua vizinhana, em sua
escola. Penso, entre outras coisas mais, no testemunho que lhes deram de
pensar e de como pensar. A posio do pobre, do mendigo, do negro, da
mulher, do campons, do operrio, do ndio neste pensar. Penso na
mentalidade materialista da posse das coisas, no descaso pela decncia,
na fixao do prazer, no desrespeito pelas coisas do esprito,
consideradas de menor ou de nenhuma valia. Adivinho o reforo deste
pensar em muitos momentos da experincia escolar em que o ndio continua
minimizado. Registro o todopoderosismo de suas liberdades, isentas de
qualquer limite, liberdades virando licenciosidade, zombando de tudo e
de todos. Imagino a importncia do viver fcil na escala de seus valores
em que a tica maior, a que rege as relaes no cotidiano das pessoas
ter inexistido quase por completo. Em seu lugar, a tica do mercado, do
lucro. M pessoas valendo pelo que ganham em dinheiro por ms. O
acatamento ao outro, o respeito ao mais fraco, a reverencia  vida no
s humana mas vegetal e animal, o cuidado com as coisas, o gosto da
boniteza, a valorao dos sentimentos, tudo isso reduzido a nenhuma ou
quase nenhuma importncia. Se nada disso, a meu juzo, diminui a
responsabilidade desses agentes da crueldade, o fato em si de mais esta
trgica transgresso da tica nos adverte de como urge que assumamos o
dever de lutar pelos princpios ticos mais fundamentais como do
respeito  vida dos seres humanos,  vida dos outros animais,  vida dos
pssaros,  vida dos rios e das florestas. No creio na amorosidade
entre mulheres e homens, entre os seres humanos, se no noS tornamos
capazes de amar o mundo. A ecologia ganha uma importncia fundamental
neste fim de sculo. Ela tem de estar presente em qualquer prtica
educativa de carter radical, crtico ou libertador.   No  possvel
refazer este pas, democratiz-lo, humaniz-lo, torn-lo srio, com
adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o
sonho, inviabilizando o amor.   Se a educao sozinha no transforma a
sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.   Se a nossa opo 
progressista, se estamos a favor da vida e no da morte, da eqidade e
no da injustia, do direito e no do arbtrio, da convivncia com o
diferente e no de sua negao, no temos outro caminho seno viver
plenamente a nossa opo. Encarn-la, diminuindo assim a distncia entre
o que fizemos e o que fazemos.   Desrespeitando os fracos, enganando os
incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o ndio,
o negro, a mulher no estarei ajudando meus filhos a ser srios, justos
e amorosos da vida e dos outros. [Uma Pgina e meia de texto digitado.
Duas e meia de manuscritos. A terceira carta, as ltimas palavras
escritas por Paulo, exatamente no dia 21 de abril de 1997. Nelas
analisou, serenamente a "malvadez" da morte de Galdino, mas com tamanha
firmeza, profundidade e clareza de indignao que poucas vezes senti ou
li nos seus escritos.   Com este esprito de luta e mansido assisti-lo
dando sua ltima aula na PUC-SP, em 22 de abril de 1997, ao lado de
outros professores. Aps a aula, quando samos todos e todas para a sala
dos professores, recordo-me, estava cansado, mas caminhava feliz para
acertar as ltimos detalhes da viagem que faramos para Portugal e
Espanha, depois da que teria acontecido, na primeira semana de maio,
para Cuba. Teramos ido ns dois com um grupo de alunos e professores do
Programa de Ps-Graduao da PUC-SP, onde ele estava lecionando, queles
pases da Europa para fazermos um seminrio e para ele receber mais trs
ttulos de Doutor Honoris Causa. Ainda no corredor, abraando-o, eu lhe
disse: "Paulo, voc est mais arguto do que nunca". Sorriu gostando de
meu carinho e de minhas palavras, pois sabia que tanto um como outras
eram verdadeiros. No dia 20 de abril, recebemos Vernica e seu pai,
Germano Coelho, amigo velho dos tempos do MCP (Movimento de Cultura
popular), do Recife. Mesmo cansado Paulo desceu a escada caracol que
separava a sala de visitas de seu escritrio, na rua Valena, e foi
buscar, entusiasma do, algumas pginas das Cartas. Leu-as, pausadamente,
para as novas visitas enquanto eu, preparando um lanche de fim de tarde
de domingo, acompanhava-o a distncia. Paulo mostrava sua alegria
incontida ao ler em voz alta as passagens que escrevera sobre a Marcha
do MST e indignado alguns esboos que ento tinha feito, naquele mesmo
dia, sobre o atentado criminosO contra Galdino. As notcias da mdia
estiveram voltadas para a dramtica histria que acontecera na madrugada
de Braslia, irnica ou propositadamente (1) no Dia do ndio. Mesmo num
domingo de sol passado em minha chcara, o ltimo no qual estivemos l,
chamado de "Poo da Panela" em homenagem aos meus dois maridos (local de
Recife onde fica o Centro Dona Olegarinha, onde Paulo fez a primeira vez
a aplicao de seu "Mtodo" de alfabetizao, e Raul o considerava o
lugar mais sedutor da cidade), Paulo escreveu sobre a barbrie que
estava abalando o pas. O titulo desta Terceira carta, segundo est nos
seus prprios rascunhos era: "Da Tolerncia, uma das qualidades
fundantes da vida democrtica". No dia 21, entretanto ao ter a noticia
de que o nosso ndio patax no resistira  "dor indizvel de seu corpo
em chamas", Paulo escreveu ento essas palavras derradeiras. Mais
contundentes e mais cheias de indignao. Se nossas visitas desse dia 20
no puderam escutar esta Terceira carta na sua verso definitiva, foram,
sem dvida, as ltimas pessoas que tiveram o privilgio de saber
detalhes e de ouvir da prpria voz do autor trechos desse livro
inacabado. Sobretudo, testemunharam a energia emanada de sua indignao
e de se amor, a vontade de trabalhar e de participar, criticamente, da
vida de seu pas; e o gosto de viver que Paulo levou consigo na
madrugada de 2 de maio de 1997. Parte II Outros escritos Descobri mento
da Amrica1   Ao comear a tentativa de resposta s perguntas que me
foram colocadas em relao ao V Centenrio do chamado "Descobrimento da
Amrica", minha primeira reflexo ou, talvez mais precisamente, minha
primeira afirmao  a de que o passado no se muda. Compreende-se,
recusa-se, aceita-se, mas no se muda.    com esta compreenso, no
fundo bvia, da chegada do colonizador, que na verdade no "descobriu",
mas conquistou a Amrica, que ensaiarei minhas respostas. A primeira
questo j est em parte respondida nesta espcie de introduo sumria
s minhas respostas. No penso nada sobre o "descobrimento" porque o que
houve foi conquista. E sobre a conquista, meu pensamento em definitivo 
o da recusa. A presena predatria do colonizador, seu incontido gosto
de sobreporse, no apenas ao espao fsico mas ao histrico e cultural
dos invadidos, seu mandonismo, seu poder avassalador sobre as terras e
as gentes, sua incontida ambio de destruir a identidade cultural dos
nacionais, considerados inferiores, quase bichos, nada disto pode ser
esquecido quando, distanciados no tempo, corremos o risco de "amaciar" a
invaso e v-la como uma espcie de presente "civilizatrio" do chamado
Velho Mundo. Minha posio hoje, decorridos 500 anos da conquista, no
sendo a de quem se deixe possuir pelo dio aos europeus,  a de quem no
se acomoda diante da malvadeza intrnseca a qualquer forma de
colonialismo, de invaso, de espoliao.  a de quem recusa encontrar
positividades em um processo por natureza perverso. No sero pois os
500 anos que nos separam da chegada invasora que me faro bendizer a
mutilao do corpo e da alma da Amrica e cujas mazelas carregamos hoje
ainda. O corpo e a alma da Amrica, o corpo e a alma de sues povos
originrios, assim como o corpo e a alma dos homens e das mulheres que
nasceram no cho americano, filhos e filhas de no importa de que
combinaes tnicas, o corpo e a alma de mulheres e homens que dizem no
 dominao de um Estado sobre o outro, de um sexo sobre o outro, de uma
classe social sobre a outra, sabem, o corpo e a alma dos progressistas e
das progressistas, o que representou o processo de expanso europia que
trazia em si as limitaes que nos eram impostas. E porque sabem no
podem bem-dizer os invasores nem a invaso. Por isso mesmo  que a
melhor maneira, no de festejar os 500 anos de invaso, no cruzando,
porm, os braos diante dos festejos a eles feitos, seria homenagear a
coragem, a rebeldia, a deciso de brigar, a bravura, a capacidade de
lutar contra o invasor; a paixo pela liberdade, de ndios e ndias, de
negros e negras, de brancos e brancas, de mamelucos, que tiveram seus
corpos rasgados, seus sonhos despedaados, suas vidas roubadas. Seus
gestos de rebeldia se repetem hoje na luta dos "sem-terra", dos
"sem-escola", dos "sem-casa", dos favelados; na luta contra a
discriminao racial, contra a discriminao de classe, de sexo. Eu
comemoro no a invaso mas a rebelio contra a invaso. E se tivesse de
falar dos principais ensinamentos que a trgica experincia colonial nos
d, eu diria que o primeiro e mais fundamental deles  o que deve fundar
a nossa deciso de recusar a expoliao, a invaso de classe tambm como
invasores ou invadidos.  o ensinamento da inconformidade diante das
injustias, o ensinamento de que somos capazes de decidir, de mudar o
mundo, de melhora-lo. O ensinamento de que os poderosos no podem tudo;
de que os frgeis podem fazer, na luta por sua libertao, de sua
fraqueza a fora com a qual vencem a fora dos fortes.  este
aprendizado que eu comemoro. Certamente o passado jamais passa no
sentido que o senso comum entende por passar. A questo fundamental no
est em que o passado passe ou no passe, mas na maneira crtica,
desperta, com que entendemos a presena do passado em procedimentos do
presente. Nesse sentido, o estudo do passado traz  memria de nosso
corpo consciente a razo de ser de muitos dos procedimentos do presente
e nos pode ajudar, a partir da compreenso do passado, a superar marcas
suas. A compreender, no caso, por exemplo, do passado da conquista como
sem duvida, ela se repete hoje, de forma diferente, s vezes. 
exatamente porque o passado se faz presente, seja o passado do
conquistador, seja o do conquistado, que os quilombos, momento exemplar
da luta dos conquistados, se repetem hoje nas lutas populares no cho da
Amrica. A conquista atual, que prescinde do corpo fsico do
conquistador, se d pela dominao econmica, pela invaso cultural,
pela dominao de classe, atravs de um sem-nmero de recursos e
instrumentos de que os poderosos, neo-imperialistas, se utilizam. Entre
eles, os instrumentos assistencialistas, os emprstimos de que resulta o
endividamento crescente dos submetidos. Para isso tudo, os poderosos de
hoje, como os de ontem, contam com algo de importncia fundamental: a
convivncia dos dominados, enquanto seres duais. Por isso mesmo tm
tambm de enfrentar o gosto de liberdade dos oprimidos, dos invadidos,
dos deserdados, com que estes, despertos, de p, s vezes na sombra,
taticamente silenciosos, "azucrinam" a cabea dos poderosos. E 
exatamente esta vontade de ser ns mesmos e este desejo forte, alentados
pelo sonho possvel, pela UTOPIA to necessria quanto vivel, que
marchamos os progressistas e as progressistas destas Terras de Amrica
para a concretude, a realizao dos sonhos dos Vascos, de Quiroga y
Tupac, dos Bolvares, dos San Martins, dos Sandinos, dos Tiradentes, dos
Ches, dos Romeros. O futuro  dos Povos e no dos Imprios. So Paulo,
abril de 1992.   Alfabetizao e misria   Tive, recentemente em Olinda,
Nordeste brasileiro, numa manh como s os trpicos conhecem, entre
chuvosa e ensolarada, uma conversa, que diria exemplar, com um jovem
educador popular que, a cada instante, a cada palavra, a cada reflexo,
revelava a coerncia com que vive sua opo democrtica e popular.
Caminhvamos Danilson Pinto e eu com alma aberta ao mundo, curiosos,
receptivos, pelas trilhas de uma favela onde cedo se aprende que s 
custa de muita teimosia se consegue tecer a vida com sua quase ausncia
ou negao Com carncia, com ameaa, com desespero, com ofensa e dor.
Enquanto andvamos pelas ruas daquele mundo maltratado e ofendido, eu ia
me lembrando de experincias de minha juventude em outras favelas de
Olinda ou do Recife, dos meus dilogos com favelados e faveladas de alma
rasgada. Tropeando na dor humana, ns nos perguntvamos em torno de um
sem-nmero de problemas. Que fazer, enquanto educadores, trabalhando num
contexto assim? H mesmo o que fazer? Como fazer, o que fazer? Que
precisamos ns, os chamados educadores, saber para viabilizar at mesmo
os nossos primeiros encontros com mulheres, homens e crianas cuja
humanidade   vem sendo negada e trada, cuja existncia vem sendo
esmagada? Paramos no meio de um pontilho estreito que possibilita a
travessia da favela para uma parte menos maltratada do bairro popular.
Olhvamos de cima um brao de rio poludo, sem vida, cuja lama e no
cuja gua empapa os mocambos nela quase mergulhados. "Mais alm dos
mocambos, me disse Danilson, h algo pior: um grande terreno onde se faz
o depsito do lixo pblico. Os moradores de toda esta redondeza
'pesquisam' no lixo o que comer, o que vestir, o que os mantenha vivos".
Foi desse horrendo aterro que h dois anos uma famlia retirou de lixo
hospitalar pedaos de seio amputado com que preparou seu almoo
domingueiro. A imprensa noticiou o fato que citei horrorizado e pleno de
justa raiva no meu ltimo livro  sombra desta manguei ra.  possvel
que a notcia tenha provocado em pragmticos neoliberais sua reao
habitual e fatalista em favor sempre dos poderosoS. " triste, mas, que
fazer? A realidade  mesmo esta." A realidade, porm, no 
inexoravelmente esta. Est sendo esta como poderia ser outra e  para
que seja outra que precisamos os progressistas de lutar. Eu me sentiria
mais do que triste, desolado e sem achar sentido para minha presena no
mundo, se fortes e indestrutveis razes me convencessem de que a
existncia humana se d no domnio da determinao. Domnio em que
dificilmente se poderia falar de opes, de deciso, de liberdade, de
tica. "Que fazer? A realidade  as sim mesmo:', seria o discurso
universal. Discurso montono, repetitivo, como a prpria existncia
humana. Numa histria assim determinada as posies rebeldes no tm
como tornar-se revolucionrias. Tenho o direito de ter raiva, de
manifesta-la, de t-la como motivao para minha briga tal qual tenho o
direito de amar, de expressar meu amor ao mundo, de t-lo como motivao
de minha briga porque, histrico, vivo a Histria como tempo de
possibilidade no de determinao. Se a realidade fosse assim porque
estivesse dito que assim teria de ser no haveria sequer por que ter
raiva. Meu direito  raiva pressupe que, na experincia histrica da
qual participo, o amanh no  algo "pr-dado", mas um desafio, um
problema. A minha raiva, minha justa ira, se funda na minha revolta em
face da negao do direito de "ser mais" inscrito na natureza dos seres
humanos. No posso, por isso, cruzar os braos fatalistamente diante da
misria, esvaziando, desta maneira, minha responsabilidade no discurso
cnico e "morno", que fala da impossibilidade de mudar porque a
realidade  mesmo assim. O discurso da acomodao ou de sua defesa, o
discurso da exaltao do silncio imposto de que resulta a imobilidade
dos silenciados, o discurso do elogio da adaptao tomada como fado ou
sina  um discurso negador da humanizao de cuja responsabilidade no
podemos nos eximir. A adaptao a situaes negadoras da humanizao s
pode ser aceita como conseqncia da experincia dominadora, ou como
exerccio de resistncia, como ttica na luta poltica. Dou a impresso
de que acei1to hoje a condio de silenciado para bem lutar, quando
puder, contra a negao de mim mesmo. Esta questo, a da legitimidade da
raiva contra a docilidade fatalista diante da negao das gentes, foi um
tema que esteve implcito em toda a nossa conversa naquela manh.    Um
dos saberes primeiros, indispensveis a quem, chegando a favelas ou a
realidades marca das pela traio a nosso direito de ser, pretende que
sua presena se v tornando convivncia, que seu estar no contexto v
virando estar com ele,  o saber do futuro como problema e no
